Aloisia Weber Lange (c.1761-1839)


Maria Aloisia Louisa Antonia Weber nasceu em Zell im Wiesental, Alemanha, provavelmente em 1761, filha de Fridolin Weber e Cäcilie Weber. Quando ela tinha cerca de um ano de idade, ela se mudou com seus pais e irmãos mais velhos para a cidade natal de sua mãe, Mannheim. A mudança fora provocada por uma contenda entre Fridolin Weber com seu antigo patrão, o Barão Schonau. Em Mannheim Aloisia recebeu sua educação, inclusive uma educação musical apurada, como seus irmãos Josepha, Johann Nepomuk, Constanze e Sophie. Dois outros irmãos morreram na infância.

Quando Mozart conheceu a família no final de 1777, Aloisia já era admirada como soprano e pianista amadora pelos cidadãos de Mannheim, incluindo o Eleitor Paladino Karl Theodor e sua esposa Elizabeth von Pfalz Sulzbach. Aloisia também já havia recebido algumas aulas de interpretação teatral com o ator Theobald Hilarius Marchand e de canto com o Abade Vogler. Os Weber, porém, passavam nessa época por grandes dificuldades financeiras. As cartas de Mozart ao pai nessa época, mostram o quanto ele se sentia penalizado por essa situação, e em quase todas elas, ele fala sobre Mlle. Weber.

Enquanto esteve em Mannheim, Mozart se dedicou à família Weber, especialmente ao desenvolvimento vocal de Aloisia. Já na primeira vez que ele a menciona em suas cartas, ele diz: "Ela canta excelentemente e tem uma voz bela e pura. Só lhe falta força dramática, mas uma vez que ela supere essa dificuldade, poderá ser prima donna em qualquer palco." Seus planos quanto a ela (viajar à Itália, Holanda e Suíça, onde ela conquistaria o público, segundo Mozart), eram impossíveis na visão de Leopold, porque a família Mozart também estava passando por sérias dificuldades financeiras.

Enquanto isso, em 23 de janeiro de 1778, Mozart estava viajando com Fridolin e Aloisia para Kirchheimbolanden, onde vivia a Princesa Caroline von Nassau-Weilburg. Lá, Aloisia cantou duas árias de Lucio Silla K.135 ("Dalla sponda tenebrosa" e Ah, se il crudel periglio"). Ela e Mozart tocaram piano diante da Princesa. Aloisia, de acordo com seus contemporâneos (inclusive Mozart) era uma ótima pianista amadora, capaz de tocar sonatas difíceis à primeira vista, inclusive as mais recentes de Mozart. Após alguns dias em Kirchheimbolanden, eles partiram para Worms, em 29 de janeiro, onde vivia o Padre Joseph Benedikt Stamm, irmão de Cäcilie Weber. Depois disso os três partiram de volta para Mannheim, chegando no dia 3 de fevereiro.

Mozart usou como pretexto o rigoroso inverno pelo qual estavam passando e algumas encomendas de peças para flauta que recebera para adiar a viagem a Paris com sua mãe Anna Maria. Em 12 de fevereiro o compositor presenteou Aloisia com a ária Cara la dolce fiamma K.293e, de Johann Christian Bach com ornamentação extra de Mozart. Na mesma época, ele escreveu a seu pai dizendo que Aloisia estava progredindo muito no canto com o seu ensino. Mozart então revelou seu plano de viajar com Aloisia, sua irmã Josepha e seu pai para a Itália e outros países, onde ele escreveria uma ópera na qual Aloisia cantaria e faria sucesso imediato. Em 12 de fevereiro Leopold respondeu com uma carta irada, mostrando-se surpreso ao ver seu filho esquecer sua própria família em favor favor de outra que ele mal conhecia. Nessa mesma, Leopold ordenou que Mozart partisse imediatamente para Paris, adicionando que lá ele deveria fazer sua fortuna primeiro, para depois fazer a de Aloisia. Podemos dizer que, se Leopold estava certo quanto às suas prevenções contra a praticidade da família Weber, estava completamente enganado quanto a Paris.

Em 13 de fevereiro houve um concerto na residência de Christian Cannabich. Cannabich era um violinista, regente e compositor de Mannheim, e também um amigo dos Weber e dos Mozart. Nesse concerto Aloisia cantou duas árias de Lucio Silla K.135, Ah, se il crudel periglio e Parto, m'affretto (as duas árias mais difíceis dessa ópera).

Mozart respeitou as ordens de seu pai, mas insistiu em esperar pela primavera para ir a Paris com sua mãe. Em 28 de fevereiro Mozart disse a seu pai que havia escrito uma nova ária para Aloisia, Alcandro lo confesso… Non so d’onde viene K.294. Mozart tinha antes o tenor de Mannheim Anton Raaff em mente ao começar a compor essa ária, mas acabou dedicando-a a Aloisia, talvez por causa de seu texto ambíguo. Em 12 de março houve um concerto de despedida para Mozart na residência de Cannabich. Nesse concerto Aloisia tocou o segundo piano no Concerto para três  pianos "Lodron" K.242 (Rosa Cannabich, filha de Cannabich, tocou o primeiro piano, e Therese Pierron o terceiro). Aloisia também cantou duas árias de Mozart: Aer tranquillo de Il rè pastore K.208 e a nova ária  Alcandro lo confesso… Non so d’onde viene K.294.

Mozart partiu para Paris com sua mãe em 14 de março. Mozart tinha claramente a intenção de casar-se com Aloisia assim que voltasse da França. Podemos deduzir isso de acordo com uma carta que ele mandara ao pai em 7 de fevereiro de 1778, sobre o casamento do Cavalheiro von Schiedenhofen : "(...) Eu não gostaria de casar-me dessa maneira [com intenções financeiras]; Eu quero fazer minha esposa feliz, mas não ficar rico às suas custas. Portanto eu deixo as coisas irem como vão, e aproveitar a minha preciosa liberdade, até o momento em que eu seja capaz de manter uma esposa e filhos (...). Pessoas ricas nunca podem casar por inclinação ou amor, mas apenas interessados em toda a sorte de segundas intenções. É incomum um nobre amar sua esposa depois de ela ter feito seu dever dando ao mundo vários herdeiros privilegiados. Mas nós, pobres e humildes, não só podemos escolher uma esposa a quem amamos e que nos ama, mas também não precisamos fazer isso [casar com intenções financeiras], porque não somos nobres, nem nascemos em berço de ouro, nem somos aristocratas, nem ricos e nem poderosos, mas ao contrário, somos da plebe, humildes e pobres; por causa disso nós não precisamos de uma esposa rica, porque nossa riqueza - nossa inteligência - morre conosco, e ninguém pode tirá-la de nós. A não ser que nos decepem!..." O final desse trecho se assemelha bastante a um discurso de Figaro, de Beaumarchais, que Mozart leria anos mais tarde.

Mozart e sua mãe chegaram a Paris em 23 de março. Os dois sofreram todo o tipo de dificuldade. Anna Maria tinha de permanecer num quarto escuro e frio, enquanto Mozart tinha de sair para visitar nobres - sofrendo humilhações em algumas residências - e compor em casa de amigos. Anna Maria adoeceu e morreu em 3 de julho. A vista a Paris foi basicamente um fracasso. Mozart não conseguiu nenhum emprego, e, de acordo com suas cartas, teve de gastar  muito dinheiro com despesas básicas, como transporte.

Em meio a todos esses problemas, Mozart ainda se preocupava com o desenvolvimento profissional de Aloisia. Quando ainda estava em  Mannheim, Mozart havia lhe dado a cena Ah lo previdi... Deh non varcar K.272, escrita para o soprano Josepha Dušek no ano anterior, em Salzburgo. Na única carta sobrevivente de Mozart para Aloisia, escrita em Paris, ele lhe dá instruções fundamentais sobre a interpretação da ária: "Penso que a senhora deve observar as expressões - pensar cuidadosamente a respeito do significado e do poder das palavras - e colocar-se na situação de Andromeda - e imaginar que a senhora é realmente aquela pessoa." Aqui Mozart observa muito gentilmente que Aloisia deve melhorar seu ponto mais fraco, a atuação. Em Paris Mozart escreveu uma versão mais ornamentada de Alcandro lo confesso... Non so d’onde viene K.294 e iniciou uma de suas melhores árias de concerto, Popoli di Tessaglia... Io non chiedo, eterni Dei K.316/300b.

A situação na Baviera era bastante crítica nesse período. Com a morte de Maximilian III Joseph, a Áustria e a Prússia queriam disputar o território, e a guerra era iminente. Fridolin pensou mesmo em sair da Baviera, tendo partido para a cidade de Mainz à procura da companhia teatral de Seyler, para que Aloisia fizesse parte dela. Mozart o dissuadiu desse plano. Enquanto isso, Karl Theodor pôs fim ao impasse da sucessão proclamando-se Príncipe-Eleitor da Baviera e mudando-se com parte da corte para Munique.

A família Weber estava portanto prestes a mudar drasticamente de situação. Em uma carta a seu pai, Mozart informa que no verão Aloisia tinha sido ouvida em concerto pelo Conde Seeau (o encarregado de assuntos culturais de Karl Theodor), e imediatamente contratou Aloisia e seu pai no teatro de Munique. Aloisia agora receberia 600 gulden por ano, o que era uma soma bastante considerável. A estréia de Aloisia ocorreria na ópera Rosamunde, de Schweitzer.

Essa ópera desagradava a Mozart. Já em 18 de dezembro do ano  anterior, Anna Maria escrevia ao marido: "A nova ópera de Schweitzer está sendo ensaiada diariamente. Ela não agrada Wolfgang de maneira alguma. Ele diz que não há nada natural nela, tudo é exagerado e não se adequa aos cantores. Como ficará essa produção é algo que precisamos esperar para ver." A apresentaçã estava prevista para 11 de janeiro de 1778, mas foi cancelada devido à morte do Prícipe-Eleitor Maximilian III Joseph. Depois do período de luto e da possibilidade de guerra, a ópera foi agendada para o carnaval de 1779 em Munique com Aloisia no papel de Emma.

De Paris, em 11 de setembro de 1778, Mozart escrevia ao pai: "Entristeço-me quando penso que os salzburgueses correrão para Munique no próximo carnaval para ver a ópera e a pobre Weberzinha não agradará, ou no mínimo não poderá ser julgada pelos seus próprios méritos, pois ela recebeu um papel miserável, quase silencioso, e ela canta uns poucos versos entre os coros. Ela tem uma ária, na qual o ritornello pode levá-lo a presumir que virá algo bom, mas a parte vocal é alla Schweitzer, ou seja, como se cães estivessem ganindo. No segundo ato ela tem uma espécie de rondó [" Wie ein Kind, in Mutterarmen"], no qual ela pode sustentar um pouco a voz e mostrar algo de suas habilidades. Pobre do cantor que cai nas mãos de Schweitzer, pois enquanto ele viver, nunca aprenderá a escrever bem para a voz."

Talvez essa súbita mudança dos fatos tenha causado o fracasso de Mozart ao cortejar Aloisia quando ele chegou em Munique em dezembro de 1778. Nessa mesma época Mozart deu a Aloisia a ária Popoli di Tessaglia... Io non chiedo, eterni Dei K.316/300b, que nos dá uma boa noção de o quanto era maravilhosa a sua voz, agilidade e extensão.

Mozart foi rejeitado por Aloisia - ou por seu pai - certamente porque sua situação financeira era agora pior que a deles. Mozart não diz uma palavra ao pai sobre esse fato, senão que "[...] Hoje eu não faço nada senão chorar... Meu coração está cheio de tristeza", sem explicar contudo os motivos.

Mozart deixou Munique em janeiro de 1779 com sua prima Bäsle, para retornar ao serviço do seu odiado patrão, o Arcebispo Colloredo de Salzburgo.

No outono de 1779 Aloisia foi contratada em Viena, juntamente com sue pai, provavelmente recomendada pelo Conde Adam Franz Hartig, embaixador austríaco em Munique. Toda a família Weber se mudou para Viena. Aloisia fez uma estréia de muito sucesso como Hännchen em  Das Rosenfest von Salency (versão alemã de La rosière de Salency de  François-André Philidor e outros). Aloisia também cantou no papel de Zemire em Zemire und Azor (versão alemã de Zemire et Azor de Grétry) em 13 de outubro. Zemire foi um de seus melhores papéis. Em 23 de outubro, porém, Fridolin Weber sofreu um derrame e faleceu. De acordo com seus contemporâneos, Aloisia sofreu muito com essa perda, adoecendo e ficando inconsciente por muitas horas. Em um desses desmaios, sua família lhe deu erroneamente um líquido usado no palco para clarear a pele numa tentativa de acordá-la. Aloisia viria a sofrer sérias cólicas estomacais por vários anos, provavelmente por causa da ingestão daquele líquido. Foi nessa época de tristeza que Aloisia conheceu Joseph Lange na residência do Barão Kienmayr. Lange era ator do teatro da corte, pintor amador de muito talento (autor dos retrato mais famoso de Constanze Weber e o incompleto de Mozart ao piano) e recentemente viúvo com dois filhos. Ele escreveu mais tarde em suas memórias que se sentiu penalizado pelo luto de Aloisia e se apaixonou por ela. Lange em breve se tornou um amigo devotado das Weber. Porém, as razões de Aloisia para casar com ele não foram tão românticas quanto dele. Aloisia precisava mais de uma figura paterna em quem se apoiar (Lange era dez anos mais velho que ela e dono de uma carreira muito estável) e, mais do que tudo, precisava se livrar do domínio despótico da mãe.

Outros papéis de Aloisia nessa época foram Claudine na estréia de Claudine von Villa Bella de Beecke em 13 de junho de 1780 e Rezia em Die Pilgrime von Mekka de Gluck em 26 de julho de 1780. Essas foram suas últimas apresentações como Mlle. Weber.

Aloisia casou-se com Joseph Lange em 31 de outubro de 1780 na Catedral de São Estevão em Viena. Houveram muitas dificuldades para que eles conseguissem se casar. Cäcilie inicialmente era contra o casamento. O que piorou - e mudou - drasticamente a situação foi o fato de Aloisia estar grávida antes do casamento. Lange obrigou-se a pagar uma indenização de 700 gulden por ano para sua sogra. Cäcilie provavelmente se considerava uma mulher bastante desafortunada, porque além de dirigir uma casa sozinha, sem o apoio de um herdeiro masculino, casava uma filha grávida.

Apesar de todos esses problemas com sua mãe, o sucesso de Aloisia crescia a cada apresentação. Ela agora era a cantora mais bem paga da Ópera Alemã ganhando 1700 gulden por ano. Seu marido não ficava atrás. Ambos eram adorados pelos vienenses.

Mozart chegou em Viena em março de 1781. Nessa época Aloisia estava no último período de sua primeira gravidez. Mozart escreveu ao pai admitindo que tinha estado apaixonado por ela quando a conheceu, e que ainda a amava agora."É muito bom para mim que seu marido seja um tolo ciumento e não a deixe ir a lugar nenhum, portanto eu raramente a vejo."

Em 31 de março Aloisia deu à luz sua primeira filha,  Maria Anna Sabina, "Nanette", que viria a se casar com um certo Herr Urspruch e viveria em Göttingen (Aloisia e seu marido teriam ao todo sete filhos). Aloisia e Lange viviam na rua Himmelpfortgasse 997 desde que se casaram. Todas as gravidezes de Aloisia eram acompanhadas de doença e depressão, e ela costumava desaparecer dos palcos por um longo tempo. O Imperador Joseph II pagou férias ao casal, e o dinheiro foi usado em viagens pela Alemanha, onde Aloisia daria concertos.

Em agosto de 1782 Mozart casou com a irmã de Aloisia, Constanze. Nesse mesmo ano Mozart escreveu a arieta Nehmt meinen Dank K.383 para Aloisia, ária que ela teria cantado no final de um concerto de despedida, quando ela estava para viajar para dar concertos em outras cidades. Em 23 de setembro, Aloisia deu à luz sua segunda filha, Philippina Anna Thekla, que morreria em 19 de janeiro de 1785, com apenas 2 anos e meio de idade.

Entre 1783 e 1786 os Lange viveram no subúrbio de Viena. Os Mozart e os Lange mantiveram relações amigáveis desde essa época. Os Mozart jantavam freqüentemente na casa dos Lange, e vice-versa. Os Lange também estiveram presentes em um baile dado na residência de Mozart em janeiro de 1783. Eles também costumavam dividir camarotes de teatro e iam a festas juntos. Aloisia também participava de concertos de Mozart no Burgtheater e vice-versa. Mozart escreveu pelo menos cinco árias de concerto para Aloisia entre 1782 e 1788. Em 8 de janeiro de 1783 Mozart terminou a ária de concerto Mia speranza adorata... Ah non sai qual pena sia K.416, que Aloisia cantaria apenas três dias mais tarde no Mehlgrube. Mozart tocou nesse concerto e foi entusiasticamente aplaudido. Aloisia cantou essa ária novamente (e também Se il padre perdei, de Idomeneo K.366) no concerto de Mozart em 28 de março. O famoso retrato de Lange de Mozart ao piano data provavelmente dessa época ou de 1789, como o de Constanze.

Aloisia também tinha cantado Alcandro lo confesso... Non so d'onde viene K.294 no seu concerto de 11 de março. Gluck estava presente e ficou tão entusiasmado que convidou os Mozart e os Lange para jantar em sua casa no domingo seguinte.

Aloisia fez sua estréia na Ópera Italiana em 30 de junho de 1783, na ópera Il curioso indiscreto de Pasquale Anfossi, como Clorinda. O tenor Johann Valentin Adamberger cantou no papel de Conte Rigaverde, amante de Clorinda. Aloisia não estava satisfeita com as árias originais, nem Adamberger, por isso pediram a Mozart que escrevesse novas árias para a ocasião. Para Aloisia, Mozart escreveu as árias extraordinariamente difíceis Vorrei spiegarvi, oh Dio K.418 e No, che non sei capace K.419, e para Adamberger (seu tenor preferido) Per pietà, non ricercate K.420. Essas inserções, embora extremamente comuns naquela época, provocaram a inveja dos italianos, porque, segundo carta de Mozart a seu pai, "(...) os italianos estão dizendo que eu queria melhorar a ópera de Anfossi". Afinal de contas, melhorou mesmo. A intriga, liderada por Salieri, provocou o orgulho de Adamberger, porque os italianos lhe disseram que não era digno de um tenor como ele recusar-se a cantar uma ária que não havia sido escrita para ele. Adamberger aceitou a provocação e cantou a ária original. Aloisia também sofreria bastante com intrigas desse tipo.

Aloisia certamente tinha suas razőes para não gostar das árias de Anfossi. Segundo Mozart, toda a ópera foi um fracasso, com exceção das novas árias. No, che non sei capace K.419 teve inclusive de ser bisada na estréia. Aloisia nessa época estava grávida de seu terceiro filho, August, que nasceria em setembro, e morreria em 23 de maio do ano seguinte.

Com a Ópera Italiana Aloisia também cantou nos papéis de Elena Belfiore em Il falegname de Domenico Cimarosa (25 de julho de 1783) e Olivetta em Le gelosie villane de Sarti (17 de outubro de 1783), com Benucci, Nancy Storace, Kelly, Bussani, Saal e Theresia Teyber. Em outubro de 1785 ela voltou para a Ópera Alemã.

Aloisia também interpretou Konstanze na reapresentação de Die Entführung aus dem Serail K.384 no Kärntnertortheater em 5 de novembro de 1784. Esse provavelmente foi o seu maior papel. Pouco depois ela e Lange partiram para uma grande viagem de concertos pela Alemanha, onde ela cantou em diversas cidades (Dresden, Hamburgo, Berlim e Munique), ganhando fama, admiração e auto-estima. Dois contemporâneos nos dão uma boa idéia do seu talento.Schönfeld (em seu Jahrbuch der Tonkunst von Wien und Prag) admirava sua técnica e a pureza de seus trinados, "indo do mais suave piano ao mais potente forte e voltando para um suavíssimo piano." O tenor irlandês Michael Kelly (o primeiro Don Basilio e Don Curzio em Le Nozze di Figaro K.492) escreveu em suas reminiscências que "ela tinha a extensão de notas agudas maior do que qualquer outra cantora que eu ouvi." Muitos jornais austríacos e alemães faziam uma extraordinária propaganda da boa impressão que ela costumava deixar nas cidades que a ouviam.

No início de 1785 nasceria o quarto filho de Aloisia e Lange, Franz, que também morreria na primeira infância, em 13 de janeiro de 1786. Em 1785, os Lange visitaram Munique, de onde retornaram em 19 de março. Durante a visita de Leopold Mozart a Viena, os Mozart e os Lange fizeram muitas visitas sociais entre si, e Leopold escreveu a sua filha Nannerl um bom relato sobre o estilo de canto de Aloisia. Em 25 de novembro, após uma séria doença, Aloisia canta no papel de Konstanze em Die Entführung aus dem Serail K.384 no Karntnertor-Theater, com grande sucesso. Ainda em 1785, o periódico Ephemeriden der Literatur und des Theaters publicou o retrato do casal Lange (abaixo), feito por Daniel Berger.

Em 7 de fevereiro de 1786 houve a estréia de Der Schauspieldirektor K.486 no Orangerie do castelo de Schönbrunn. Aloisia interpretou Madame Herz, ao lado de seu marido, que interpretou Herz. Katherina Cavalieri, Adamberger e os principais atores da Ópera Alemã fizeram parte. A ópera de Mozart foi apresentada em um dos lados do Orangerie. Assim que terminou, os convidados se dirigiram à outra extremidade do Orangerie, onde havia outro palco, estando para começar a opereta Prima la musica, poi le parole de Salieri. Essas duas óperas e um jantar imperial foram dados pelo Imperador em honra da visita do Governador Geral dos Países Baixos Austríacos, Duque Albrecht Kasimir von Sachsen-Teschen e sua esposa, a irmã de Joseph II, a Arquiduquesa Maria Christina. No final do ano, em 2 de dezembro, Aloisia deu à luz sua quinta filha, Rosina, que viveria até 1839 em Colliano (Tirol italiano), e se casaria com Louis Villy. Em 1787, Aloisia cantou uma ária de Mozart no concerto do oboísta Friedrich Ramm no Kärntnertortheater em 14 de março, e outra ária (provavelmente Mia speranza adorata... Ah non sai qual pena sia K.416) em seu próprio concerto no Burgtheater em 17 de março. Ainda naquele ano, em 15 de dezembro, a Ópera Alemã foi fechada, e Aloisia teve de se mudar novamente para a Ópera Italiana. Lá, ela poderia competir com as divas italianas, que formavam um grupo mais homogêneo que o da Ópera Alemã. Ela sempre cantava os papéis mais difíceis, sem receber necessariamente o maior salário. É o caso da estréia vienense de Don Giovanni K.527, em 7 de maio de 1788, na qual ela cantou como Donna Anna. Aloisia também cantava em oratórios e cantatas, como Die Auferstehung und Himmelfuhrt Christi de C. P. E. Bach em 26 de fevereiro e 4 e 7 de março, ao lado de Adamberger e Ignaz Saal. Em alguma dessas ocasiões, ela cantou uma ária de Mozart, provavelmente Ah se in ciel, benigne stelle K.538, a última ária que Mozart escreveu para sua cunhada. Em 9 de fevereiro (ou 2 de setembro, segundo algumas fontes) daquele ano ela tinha tido seu sexto filho, Karl Jakob, que viveria até 1832. Ele seria ator e soldado do exército austríaco contra Napoleão.

Nesse ano Aloisia sofreria uma das piores crises de sua vida: ela foi repentinamente demitida da Ópera Italiana em agosto de 1788, e ela já estava, como sempre, doente e deprimida. Havia rumores de que ela tinha perdido sua voz (o que na realidade só aconteceria por volta de 1813). O resultado foi devastador. Cäcilie passou a culpar Lange, injustamente, por todas as doenças que Aloisia estava passando, e planejou separá-lo da esposa, arranjando um contrato para a filha em outra cidade. Enquanto isso, Aloisia, mais triste e deprimida do que nunca, perdeu de vez sua auto-estima. Acredita-se que ela necessitasse compulsivamente do aplauso e do sucesso do público, sem o que punha em dúvida o seu talento. Assim que ela melhorou, partiu com o marido em mais uma viagem de concertos. Ela era louvada por onde quer que passasse, dando-lhe ânimo para continuar cantando. Esse fato prova que ela não merecia ser demitida.

De volta a Viena, Aloisia cantou a parte de soprano na estréia da versão re-orquestrada por Mozart do Messiah K.572 de Händel em 6 de março de 1789. Nesse mesmo ano, nos dias 7, 10 e 24 de julho ela cantou no papel de Konstanze em Die Entführung aus dem Serail K.384 em Hamburgo, e talvez em Berlim. Ela provavelmente também cantou a parte de soprano nas estréias das versões re-orquestradas por Mozart de Alexander's Feast K.591 e Ode for St. Cecilia's Day K.592, ambas também de Händel. Em setembro ela deu à luz seu sétimo filho, que morreria na infância.

Em 1790 faleceu Joseph II e seu irmão Leopold II assumiu o trono. Sob o novo Imperador Aloisia foi contratada novamente. Mas logo ela percebeu que estava sendo cada vez menos convidada que antes. Ela foi ficando cada vez mais desesperada. Para piorar a situação, Lange agora tinha muitas dívidas, que subiam a mais de 1000 gulden. O Imperador, porém, o ajudou, assim como seus amigos e protetores (ajuda que Mozart quase nunca teve). Aloisia deu à luz seu último filho nesse mesmo ano.

Em 4 de março de 1791, Aloisia cantou algumas árias, entre elas Mia speranza adorata... Ah non sai qual pena sia K.416 no concerto de Joseph Bähr na residência de Jahn. Nessa mesma apresentação Mozart estreou o Concerto para piano N. 27 em si bemol maior K.595, e este seria o último concerto público do compositor.  Ainda naquele ano, em 16 e 17 de abril, Aloisia cantou uma ária de Mozart, talvez No, che non sei capace K. 419, no Tonkünstler Societät. Esta ária foi precedida de um recitativo com as palavras "Ah da me s'allontani l'oggetto di tormento", de compositor desconhecido. Em 5 de dezembro Mozart faleceu, e em 29 de dezembro de 1794 e 31 de março de 1795 ela cantou no papel de Sesto em La Clemenza di Tito K.621 em concertos em homenagem ao compositor. Em um concerto da pianista cega Maria Theresia von Paradies em 21 de janeiro de 1794 no Kleiner Redoutensaal, Aloisia cantou uma ária de Mozart, assim como em 24 de janeiro do mesmo ano.

Aloisia estava novamente triste e sem a menor auto-estima. Seu casamento era muito infeliz. Cäcilie Weber, a mãe de Lange e a antiga sogra dele contribuíram muito para a ruptura do casal. Lange era extremamente ciumento de sua esposa (Mozart tinha razão) e Aloisia tinha um temperamento irritável a ponto de não admitir o menor ciúme. De acordo com as reminiscências (1808), Lange escreve que sua esposa era, além de irritável, era melancólica e orgulhosa. Uma verdadeira prima donna, no palco e fora dele. Ela não conseguia suportar o fato de ser esquecida pelo frívolo público vienense. Mozart, aliás,  sofrera com essa mesma situação. Então, no outono de 1795, Constanze e o pianista e compositor Franz Eberl a convidaram para participar de concertos pela Alemanha. Lange deu sua permissão. De acordo com o programa do concerto de Leipzig, podemos saber que Aloisia ainda era capaz de cantar árias extremamente difíceis (Leipzig Gewandhaus, 11 de novembro de 1795):

Concerto das irmãs Madame Lange e Madame Mozart

No qual o Senhor Mestre de Capela Eberl será ouvido ao pianoforte

Sinfonia

Ária "No, che non sei capace" (Mad. Lange)

Concerto para pianoforte (Mestre de Capela Eberl)

Trio de Clemenza di Tito "Vengo, aspettate" (Mad. Mozart, Mad. Lange e Hr. Richter)

Marcha da mesma ópera

Um movimento Allegro

Recitativo e Rondó "Mia speranza adorata" (Mad. Lange)

Dueto de Clemenza di Tito "Come ti piace, imponi" (Mad. Lange e Mad. Mozart)

Recitativo, Quinteto e Coro de Clemenza di Tito "Oh Dei, che smania è questa"

No meio de dezembro os três estiveram em Hamburgo. Constanze e Eberl retornaram a Viena, mas sem Aloisia. Lange, desesperado, tentou inutilmente convencê-la a voltar para casa. Ela então começou uma série de viagens pela Europa, que a tornaria lendária. Em 1797 ela cantou novamente em Hamburgo. Ela esteve nessa mesma cidade novamente em 1798 e em 1800-1. Ela agora se fazia chamar Louise Lange. Ela cantou em Amsterdã em 1798, onde uma Ópera Alemã havia sido estabelecida recentemente. Ela agora era exatamente o que ela queria ser: famosa e feliz. Além de cantar, ela também se apresentava como pianista: em um concerto em Amsterdã em dezembro de 1800, Aloisia tocou uma sonata de Ignace Joseph Pleyel.  Quando Katherina Cavalieri faleceu em 1801, Aloisia se tornou o sinônimo do papel de Konstanze em Die Entführung aus dem Serail K.384. A Ópera Alemã de Amsterdã teve de fechar em 1801, mudando-se ela para Paris, e no ano seguinte para Frankfurt. Lá ela foi admirada por todos, inclusive pela mãe de Goethe. O único contato conhecido de Aloisia com algum de seus filhos sobreviventes desde 1795 ocorreu em 1806, com sua primeira filha Nannete (um soprano que havia cantado no papel de Susanna em Le Nozze di Figaro K.492 em Viena). Instabilidades políticas causaram sua mudança para Zurique em 1813. Seu repertório teve de sofrer mudanças porque agora sua voz estava entrando em declínio. Ela cantava agora árias de compositores como Danzi e Mayr, então em voga. Ela era muito requisitada como professora de canto, atividade que nunca a atraiu. Aloisia fundou juntamente com o tenor David Hardmeyer um instituto de artes, que se tornou muito importante no círculo de artistas e admiradores. Ela porém, teve várias vezes de pagar os artistas com seu próprio dinheiro, o que contribuiu  muito para sua instabilidade financeira. Ela retornou a Viena em 1819.

Ela tinha agora de se manter quase exclusivamente dando aulas de canto, o que se tornou muito difícil por causa de sua idade. Mary Novello, biógrafa de Mozart, escrevera isso em seu diário. Ela também relatou que Aloisia era uma mulher muito amável. Aloisia afirmou que "Mozart a amara até a morte, o que ocasionalmente causava um certo ciúme em sua irmã [Constanze]". Nós não podemos afirmar se isso era verdade.

Uma de suas alunas desse período foi o contralto Karoline Unger (Ungher), que cantaria a parte de contralto da Missa Solene e da Nona Sinfonia de Beethoven (além dos papéis-título Parisina e Maria de Rudenz de Donizetti). Conta a lenda que teria sido ela que, ao fim da Nona Sinfonia, pegou o então já surdo Beethoven pelos ombros e o virou para a platéia que o aplaudia sem que ele ouvisse. Ela mais tarde cantaria diversos papéis de Donizetti e outros compositores na Itália, além de canções de Mozart e Schubert.

A pequena pensão que Aloisia recebia de Lange terminou quando ele faleceu em 17 de setembro de 1831. Ela fez um requerimento ao governo para receber uma pequena pensão dada aos antigos membros do teatro da corte. Nesse mesmo ano ela se mudou para Salzburgo onde suas irmãs Constanze e Sophie estavam vivendo desde a morte de seus maridos em 1826 (Constanze havia se casado em 1809 com o diplomata dinamarquês Georg Nikolaus Nissen e Sophie com Jakob Haibel). Aloisia, porém, continuou a morar sozinha. Ela, porém, desejava muito voltar para Viena, de acordo com uma carta encontrada recentemente, datada de 22 de outubro de 1837, para uma sobrinha sua.

Aloisia faleceu em 8 de junho de 1839 muito pobre. Segundo sua biógrafa Ursula Mauthe, ela possuía apenas 35 florins e 20 kreuzer. Ela foi sepultada no cemitério de São Sebastião, em Salzburgo.

 

Aloisia Weber Lange foi, indubitavelmente, uma das melhores cantoras do século XVIII.


VER TAMBÉM:

MEMÓRIAS DE JOACHIM DANIEL PREISLER


ARQUIVOS MIDI:

 

Alcandro, lo confesso... Non so d'onde viene K.294 (ária de concerto,1ª versão - redução para voz e piano)

Popoli di Tessaglia... Io non chiedo, eterni Dei K.316/300b (ária de concerto - redução para voz e piano)

Nehmt meinen Dank K.383 (ária de concerto - redução para voz e piano)


Parentes e amigos

Index