
Aloisia Weber Lange (c.1761-1839)
Maria
Aloisia Louisa Antonia Weber
nasceu
em Zell im Wiesental,
Alemanha,
provavelmente em 1761,
filha de Fridolin Weber e
Cäcilie Weber.
Quando ela tinha cerca de um ano de
idade,
ela se
mudou com
seus
pais e
irmãos mais velhos para a
cidade natal de
sua
mãe, Mannheim. A
mudança
fora
provocada
por uma contenda entre Fridolin Weber com
seu
antigo
patrão, o
Barão Schonau.
Em
Mannheim
Aloisia
recebeu
sua
educação, inclusive
uma
educação musical
apurada,
como
seus
irmãos
Josepha, Johann Nepomuk, Constanze e Sophie.
Dois outros irmãos morreram na infância.
Quando Mozart conheceu a família no final de 1777, Aloisia já era admirada como soprano e pianista amadora pelos cidadãos de Mannheim, incluindo o Eleitor Paladino Karl Theodor e sua esposa Elizabeth von Pfalz Sulzbach. Aloisia também já havia recebido algumas aulas de interpretação teatral com o ator Theobald Hilarius Marchand e de canto com o Abade Vogler. Os Weber, porém, passavam nessa época por grandes dificuldades financeiras. As cartas de Mozart ao pai nessa época, mostram o quanto ele se sentia penalizado por essa situação, e em quase todas elas, ele fala sobre Mlle. Weber.
Enquanto esteve em Mannheim, Mozart se dedicou à família Weber, especialmente ao desenvolvimento vocal de Aloisia. Já na primeira vez que ele a menciona em suas cartas, ele diz: "Ela canta excelentemente e tem uma voz bela e pura. Só lhe falta força dramática, mas uma vez que ela supere essa dificuldade, poderá ser prima donna em qualquer palco." Seus planos quanto a ela (viajar à Itália, Holanda e Suíça, onde ela conquistaria o público, segundo Mozart), eram impossíveis na visão de Leopold, porque a família Mozart também estava passando por sérias dificuldades financeiras.
Enquanto isso, em 23 de janeiro de 1778, Mozart estava viajando com Fridolin e Aloisia para Kirchheimbolanden, onde vivia a Princesa Caroline von Nassau-Weilburg. Lá, Aloisia cantou duas árias de Lucio Silla K.135 ("Dalla sponda tenebrosa" e Ah, se il crudel periglio"). Ela e Mozart tocaram piano diante da Princesa. Aloisia, de acordo com seus contemporâneos (inclusive Mozart) era uma ótima pianista amadora, capaz de tocar sonatas difíceis à primeira vista, inclusive as mais recentes de Mozart. Após alguns dias em Kirchheimbolanden, eles partiram para Worms, em 29 de janeiro, onde vivia o Padre Joseph Benedikt Stamm, irmão de Cäcilie Weber. Depois disso os três partiram de volta para Mannheim, chegando no dia 3 de fevereiro.
Mozart
usou como pretexto o rigoroso inverno pelo qual estavam
passando e
algumas encomendas de
peças para flauta que recebera para adiar a viagem a Paris com
sua mãe Anna
Maria.
Em 12 de
fevereiro o compositor
presenteou
Aloisia com a
ária Cara la dolce fiamma K.293e,
de Johann Christian Bach com
ornamentação extra de Mozart. Na
mesma
época,
ele escreveu a seu pai dizendo que Aloisia estava
progredindo muito no canto com
o
seu ensino. Mozart
então
revelou seu plano de viajar com
Aloisia, sua irmã Josepha e seu pai para a Itália e
outros países, onde ele escreveria
uma ópera na qual Aloisia cantaria e
faria sucesso imediato.
Em 12 de
fevereiro
Leopold
respondeu com
uma carta
irada, mostrando-se surpreso ao ver seu filho
esquecer sua própria família em favor favor de
outra que ele mal
conhecia.
Nessa mesma, Leopold
ordenou que Mozart
partisse imediatamente para Paris,
adicionando que lá ele deveria fazer sua fortuna
primeiro, para depois fazer a de Aloisia.
Podemos dizer que, se Leopold
estava certo quanto
às suas prevenções contra a praticidade da família Weber,
estava completamente enganado quanto a Paris.
Em 13 de fevereiro houve um concerto na residência de Christian Cannabich. Cannabich era um violinista, regente e compositor de Mannheim, e também um amigo dos Weber e dos Mozart. Nesse concerto Aloisia cantou duas árias de Lucio Silla K.135, Ah, se il crudel periglio e Parto, m'affretto (as duas árias mais difíceis dessa ópera).
Mozart respeitou as ordens de seu pai, mas insistiu em esperar pela primavera para ir a Paris com sua mãe. Em 28 de fevereiro Mozart disse a seu pai que havia escrito uma nova ária para Aloisia, Alcandro lo confesso… Non so d’onde viene K.294. Mozart tinha antes o tenor de Mannheim Anton Raaff em mente ao começar a compor essa ária, mas acabou dedicando-a a Aloisia, talvez por causa de seu texto ambíguo. Em 12 de março houve um concerto de despedida para Mozart na residência de Cannabich. Nesse concerto Aloisia tocou o segundo piano no Concerto para três pianos "Lodron" K.242 (Rosa Cannabich, filha de Cannabich, tocou o primeiro piano, e Therese Pierron o terceiro). Aloisia também cantou duas árias de Mozart: Aer tranquillo de Il rè pastore K.208 e a nova ária Alcandro lo confesso… Non so d’onde viene K.294.
Mozart partiu para Paris com sua mãe em 14 de março. Mozart tinha claramente a intenção de casar-se com Aloisia assim que voltasse da França. Podemos deduzir isso de acordo com uma carta que ele mandara ao pai em 7 de fevereiro de 1778, sobre o casamento do Cavalheiro von Schiedenhofen : "(...) Eu não gostaria de casar-me dessa maneira [com intenções financeiras]; Eu quero fazer minha esposa feliz, mas não ficar rico às suas custas. Portanto eu deixo as coisas irem como vão, e aproveitar a minha preciosa liberdade, até o momento em que eu seja capaz de manter uma esposa e filhos (...). Pessoas ricas nunca podem casar por inclinação ou amor, mas apenas interessados em toda a sorte de segundas intenções. É incomum um nobre amar sua esposa depois de ela ter feito seu dever dando ao mundo vários herdeiros privilegiados. Mas nós, pobres e humildes, não só podemos escolher uma esposa a quem amamos e que nos ama, mas também não precisamos fazer isso [casar com intenções financeiras], porque não somos nobres, nem nascemos em berço de ouro, nem somos aristocratas, nem ricos e nem poderosos, mas ao contrário, somos da plebe, humildes e pobres; por causa disso nós não precisamos de uma esposa rica, porque nossa riqueza - nossa inteligência - morre conosco, e ninguém pode tirá-la de nós. A não ser que nos decepem!..." O final desse trecho se assemelha bastante a um discurso de Figaro, de Beaumarchais, que Mozart leria anos mais tarde.
Mozart e sua mãe chegaram a Paris em 23 de março. Os dois sofreram todo o tipo de dificuldade. Anna Maria tinha de permanecer num quarto escuro e frio, enquanto Mozart tinha de sair para visitar nobres - sofrendo humilhações em algumas residências - e compor em casa de amigos. Anna Maria adoeceu e morreu em 3 de julho. A vista a Paris foi basicamente um fracasso. Mozart não conseguiu nenhum emprego, e, de acordo com suas cartas, teve de gastar muito dinheiro com despesas básicas, como transporte.
Em
meio a
todos esses
problemas, Mozart
ainda se
preocupava com o
desenvolvimento
profissional de Aloisia.
Quando ainda
estava em
Mannheim, Mozart
havia
lhe
dado a
cena Ah lo previdi... Deh non varcar K.272,
escrita para o soprano
Josepha Dušek no
ano anterior,
em Salzburgo. Na
única carta
sobrevivente de
Mozart
para Aloisia,
escrita em Paris, ele lhe dá instruções fundamentais sobre a interpretação da
ária: "Penso
que a senhora deve observar as expressões - pensar cuidadosamente a respeito do
significado e do poder das palavras - e colocar-se na situação de Andromeda - e
imaginar que a
senhora é realmente aquela pessoa."
Aqui Mozart
observa muito gentilmente que Aloisia deve melhorar seu ponto mais fraco, a
atuação. Em Paris Mozart
escreveu uma
versão mais ornamentada
de
Alcandro
lo confesso... Non so d’onde viene K.294 e
iniciou uma de
suas melhores árias
de concerto, Popoli di Tessaglia... Io non chiedo, eterni Dei K.316/300b.
A situação na Baviera era bastante crítica nesse período. Com a morte de Maximilian III Joseph, a Áustria e a Prússia queriam disputar o território, e a guerra era iminente. Fridolin pensou mesmo em sair da Baviera, tendo partido para a cidade de Mainz à procura da companhia teatral de Seyler, para que Aloisia fizesse parte dela. Mozart o dissuadiu desse plano. Enquanto isso, Karl Theodor pôs fim ao impasse da sucessão proclamando-se Príncipe-Eleitor da Baviera e mudando-se com parte da corte para Munique.
A família Weber estava portanto prestes a mudar drasticamente de situação. Em uma carta a seu pai, Mozart informa que no verão Aloisia tinha sido ouvida em concerto pelo Conde Seeau (o encarregado de assuntos culturais de Karl Theodor), e imediatamente contratou Aloisia e seu pai no teatro de Munique. Aloisia agora receberia 600 gulden por ano, o que era uma soma bastante considerável. A estréia de Aloisia ocorreria na ópera Rosamunde, de Schweitzer.
Essa ópera desagradava a Mozart. Já em 18 de dezembro do ano anterior, Anna Maria escrevia ao marido: "A nova ópera de Schweitzer está sendo ensaiada diariamente. Ela não agrada Wolfgang de maneira alguma. Ele diz que não há nada natural nela, tudo é exagerado e não se adequa aos cantores. Como ficará essa produção é algo que precisamos esperar para ver." A apresentaçã estava prevista para 11 de janeiro de 1778, mas foi cancelada devido à morte do Prícipe-Eleitor Maximilian III Joseph. Depois do período de luto e da possibilidade de guerra, a ópera foi agendada para o carnaval de 1779 em Munique com Aloisia no papel de Emma.
De Paris, em 11 de setembro de 1778, Mozart escrevia ao pai: "Entristeço-me quando penso que os salzburgueses correrão para Munique no próximo carnaval para ver a ópera e a pobre Weberzinha não agradará, ou no mínimo não poderá ser julgada pelos seus próprios méritos, pois ela recebeu um papel miserável, quase silencioso, e ela canta uns poucos versos entre os coros. Ela tem uma ária, na qual o ritornello pode levá-lo a presumir que virá algo bom, mas a parte vocal é alla Schweitzer, ou seja, como se cães estivessem ganindo. No segundo ato ela tem uma espécie de rondó [" Wie ein Kind, in Mutterarmen"], no qual ela pode sustentar um pouco a voz e mostrar algo de suas habilidades. Pobre do cantor que cai nas mãos de Schweitzer, pois enquanto ele viver, nunca aprenderá a escrever bem para a voz."
Talvez essa súbita mudança dos fatos tenha causado o fracasso de Mozart ao cortejar Aloisia quando ele chegou em Munique em dezembro de 1778. Nessa mesma época Mozart deu a Aloisia a ária Popoli di Tessaglia... Io non chiedo, eterni Dei K.316/300b, que nos dá uma boa noção de o quanto era maravilhosa a sua voz, agilidade e extensão.
Mozart foi rejeitado por Aloisia - ou por seu pai - certamente porque sua situação financeira era agora pior que a deles. Mozart não diz uma palavra ao pai sobre esse fato, senão que "[...] Hoje eu não faço nada senão chorar... Meu coração está cheio de tristeza", sem explicar contudo os motivos.
Mozart deixou Munique em janeiro de 1779 com sua prima Bäsle, para retornar ao serviço do seu odiado patrão, o Arcebispo Colloredo de Salzburgo.
No
outono de 1779
Aloisia foi contratada em
Viena,
juntamente com
sue pai, provavelmente recomendada
pelo
Conde
Adam Franz Hartig,
embaixador austríaco em Munique. Toda a
família Weber se
mudou para Viena.
Aloisia fez
uma estréia de
muito sucesso como Hännchen
em Das Rosenfest von Salency (versão
alemã de
La rosière
de Salency de François-André Philidor e
outros).
Aloisia
também cantou no
papel de Zemire
em Zemire und Azor (versão
alemã de Zemire et Azor
de Grétry)
em 13 de
outubro. Zemire
foi um de
seus
melhores
papéis.
Em 23 de
outubro,
porém, Fridolin Weber
sofreu um
derrame e
faleceu. De
acordo com
seus
contemporâneos,
Aloisia
sofreu
muito com
essa
perda,
adoecendo e
ficando inconsciente por muitas horas. Em um
desses
desmaios,
sua
família lhe deu erroneamente um líquido usado no palco para clarear a pele numa
tentativa de acordá-la.
Aloisia
viria a sofrer sérias cólicas estomacais por vários anos, provavelmente por
causa da ingestão daquele líquido. Foi nessa época de tristeza que Aloisia conheceu
Joseph Lange
na
residência do
Barão Kienmayr.
Lange era
ator do
teatro da corte, pintor amador de muito talento (autor dos
retrato mais famoso
de
Constanze
Weber e o
incompleto de Mozart
ao piano) e
recentemente viúvo com dois filhos. Ele escreveu mais tarde em suas memórias que
se sentiu penalizado pelo luto de Aloisia e se apaixonou por ela.
Lange
em
breve se
tornou um amigo
devotado das Weber.
Porém, as
razões de
Aloisia
para casar com ele não foram tão românticas quanto dele.
Aloisia precisava mais de uma figura paterna em quem se apoiar (Lange
era
dez anos mais velho que ela e dono de uma carreira muito estável) e,
mais do
que tudo,
precisava se
livrar do
domínio despótico da mãe.
Outros papéis de Aloisia nessa época foram Claudine na estréia de Claudine von Villa Bella de Beecke em 13 de junho de 1780 e Rezia em Die Pilgrime von Mekka de Gluck em 26 de julho de 1780. Essas foram suas últimas apresentações como Mlle. Weber.
Aloisia casou-se com Joseph Lange em 31 de outubro de 1780 na Catedral de São Estevão em Viena. Houveram muitas dificuldades para que eles conseguissem se casar. Cäcilie inicialmente era contra o casamento. O que piorou - e mudou - drasticamente a situação foi o fato de Aloisia estar grávida antes do casamento. Lange obrigou-se a pagar uma indenização de 700 gulden por ano para sua sogra. Cäcilie provavelmente se considerava uma mulher bastante desafortunada, porque além de dirigir uma casa sozinha, sem o apoio de um herdeiro masculino, casava uma filha grávida.
Apesar de todos esses problemas com sua mãe, o sucesso de Aloisia crescia a cada apresentação. Ela agora era a cantora mais bem paga da Ópera Alemã ganhando 1700 gulden por ano. Seu marido não ficava atrás. Ambos eram adorados pelos vienenses.
Mozart chegou em Viena em março de 1781. Nessa época Aloisia estava no último período de sua primeira gravidez. Mozart escreveu ao pai admitindo que tinha estado apaixonado por ela quando a conheceu, e que ainda a amava agora."É muito bom para mim que seu marido seja um tolo ciumento e não a deixe ir a lugar nenhum, portanto eu raramente a vejo."
Em 31 de março Aloisia deu à luz sua primeira filha, Maria Anna Sabina, "Nanette", que viria a se casar com um certo Herr Urspruch e viveria em Göttingen (Aloisia e seu marido teriam ao todo sete filhos). Aloisia e Lange viviam na rua Himmelpfortgasse 997 desde que se casaram. Todas as gravidezes de Aloisia eram acompanhadas de doença e depressão, e ela costumava desaparecer dos palcos por um longo tempo. O Imperador Joseph II pagou férias ao casal, e o dinheiro foi usado em viagens pela Alemanha, onde Aloisia daria concertos.
Em agosto de 1782 Mozart casou com a
irmã de Aloisia,
Constanze. Nesse mesmo ano Mozart escreveu a arieta Nehmt meinen Dank K.383
para
Aloisia, ária que ela teria cantado no final de um concerto de despedida,
quando ela estava para viajar para dar concertos em outras cidades. Em 23 de
setembro,
Aloisia
deu à luz sua segunda filh