Anna Lucia de Amicis Buonsollazzi (c.1733-1816)


Anna Lucia de Amicis nasceu em Nápoles, em aproximadamente 1733, filha de Domenico Antonio de Amicis. Anna estudou com o contralto Vittoria Tesi-Tramontini (1700-1775) e iniciou sua carreira na ópera cômica, estreando em 1754 em Siena na ópera La finta sposa. Mais tarde ela seria uma das mais admiradas intérpretes da ópera séria, ocasionalmente retornando ao gênero cômico.

Após cantar em diversas cidades italianas, Anna apresentou-se na Itália, Bruxelas, Dublin e Londres. Nessa última cidade, onde foi contratada no King's Theatre em 1762, ela foi muito admirada. Segundo Charles Burney, ela "cativou o público de várias maneiras. Suas expressões e gestos eram extremamente elegantes e graciosos; seu semblante, apesar de não ser perfeitamente belo, era muito delicado e interessante; e sua voz e maneira de cantar, era primorosamente refinada e doce. Ela não fazia um movimento que não agradasse os olhos, nem um som que não deliciasse os ouvidos."

Entre seus papéis na Inglaterra estavam Bellarosa em La calamità de' cuori de Baldassare Galuppi em 3 de fevereiro de 1763; Candiope na estréia de Orione, ossia Diana vendicata de Johann Christian Bach em 19 de fevereiro; e o papel-título de Zanaida de J. C. Bach em 7 de maio.

Naquele mesmo ano, Anna de Amicis retornou à Itália, e de passagem por Mainz em agosto, conheceu os Mozart, que iniciavam a Grande Viagem pela Europa. Em 1767, em Florença, Anna de Amicis cantou no papel de Aristea em L'Olimpiade de T. Traetta, com Giovanni Manzuoli como Megacle e Anton Raaff como Clistene.

Em 1768, Anna casou com o médico florentino Francesco Buonsollazzi, e na década seguinte teria uma carreira de sucesso na Itália. Os Mozart, durante sua primeira viagem italiana, a encontraram novamente em Nápoles em maio de 1770. Mozart escreveu para a irmã Nannerl que "De Amicis canta incomparavelmente" (carta de 29 de maio de 1770).  No dia seguinte Mozart e seu pai Leopold a ouviram cantar na estréia de Armida abbandonata, de Jomelli, no papel-título. Na verdade, Mozart queria que ela cantasse no papel de Aspasia na estréia de Mitridade, rè di Ponto K.87/74a, que estava escrevendo para Milão, mas no final o papel foi escrito para Antonia Bernasconi. Aliás, Mozart também queria escrever sobre um texto de Pietro Metastasio e que o castrato Giovanni Manzuoli cantasse no papel-título, mas nenhum de seus pedidos foi atendido.

Em compensação, Anna de Amicis cantaria no difícil papel de Giunia na estréia de Lucio Silla K.135 em 26 de dezembro de 1772. Leopold Mozart descreveu a complicada estréia em carta a sua esposa Anna Maria em 2 de janeiro de 1773:

A ópera terminou com sucesso, apesar de na estréia terem ocorrido alguns aborrecimentos. O primeiro foi que a ópera, que geralmente começa uma hora depois de os sinos terem batido as vésperas, começou 3 horas mais tarde [o Arquiduque Ferdinand estava ocupado com assuntos de Estado], umas 8 horas da noite no horário da Alemanha, e só terminou às 2 da manhã. Os cantores estavam muito nervosos por terem de cantar diante de um público tão distinto. Mas os cantores, juntamente com a orquestra e o público, muitos dos quais de pé, tiveram de esperar 3 horas pelo início da ópera. Em segundo, o tenor [Bassano Morgoni, o primeiro Silla], nunca tinha atuado num palco tão importante. Em sua primeira ária [N.4 Dalla sponda tenebrosa], a prima donna Anna de Amicis devia esperar que ele lhe fizesse um gesto de raiva, mas ele o fez de maneira tão exagerada que parecia que ele ia esbofetear seus ouvidos e arrancar seu nariz com o punho, o que fez a platéia em peso cair na risada. Ela não cantou bem pelo resto da noite, também porque ela estava ciumenta do primo uomo [Venanzio Rauzzini, o primeiro Cecilio], que foi aplaudido pela Arquiduquesa no momento em que entrou no palco. Isso foi um truque bem típico de castrati, já que ele fez com que fosse dito à Arquiduquesa que ele estava tão aterrorizado de subir naquele palco que talvez não conseguisse cantar. Sua intenção era que a corte o aplaudisse para encorajá-lo. Para consolá-la, a Signora de Amicis foi chamada para cantar na corte ao meio-dia do dia seguinte, e ela obteve uma audiência com a Arquiduquesa que durou uma hora, e só então a ópera começou a ir bem.

Apesar de todas as intrigas, Leopold escreveu que "Ela canta e atua como um anjo", em carta escrita pouco antes da estréia. A ópera teve muito sucesso.

Em 9 de maio de 1778, Anna de Amicis cantou no papel-título da estréia italiana de Alceste de Gluck. Ela encerrou sua carreira nos palcos em 1779, mas continuou a cantar em apresentações privadas em Nápoles, onde faleceu em 1816.


Parentes e amigos

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