Katherina Cavalieri (1755-1801)


Katherina Magdalena Josepha Cavalier nasceu em Viena, 18 de março de 1755, filha do músico e regente Joseph Cavalier. Sob orientação de seu professor de canto e suposto amante Antonio Salieri, Katherina estreou com muito sucesso no papel de Sandrina na ópera La finta giardiniera de Pasquale Anfossi em 13 ou 19 de junho de 1775.

Outra de suas primeiras apresentações foi num pequeno papel na ópera La finta scema de A. Salieri em 1775. Sua maior ária, "Se spiegar potessi appieno" em dó maior, tem coloratura elaborada que chega ao ré sobreagudo. Curiosamente, nem o libreto nem a música têm a menor relação com as características do personagem. Essa apresentação agradou muito a seu professor, que lembrava da ocasião com prazer. No autógrafo da ópera, ele escreveu: "Esta [ária] foi cantada de maneira maravilhosa pela voz mais bela, e agradou imensamente."

Aliás, as grandes árias de bravura, geralmente em dó maior com instrumentos solistas, se tornariam sua marca registrada. Diversos compositores escreveriam árias semelhantes para ela, inclusive Umlauf e finalmente Mozart em 1782.

Na estréia da Ópera Nacional Alemã, em 17 de fevereiro de 1778, Katherina cantou no papel de Sophie em Die Bergknappen de Ignaz Umlauf. Seus colegas de palco nessa ocasião eram Joseph Martin Ruprecht (Fritz) e Franz Fuchs (Walcher). Na apresentação de 23 de fevereiro, seu sucesso foi ainda mais estrondoso. A partir dessa ano ela italianizou seu nome, passando a ser chamada "Cavalieri". O auge de sua carreira aconteceu na década de 1780.

Críticos da época elogiavam a beleza e agilidade de sua voz, embora sua atuação gerasse críticas contraditórias. Todos, porém, eram impiedosos quanto a sua aparência física.

Em 30 de abril Salieri estreava uma de suas poucas óperas alemãs, Der Rauchfangkehrer, oder Die unentbehrlichen Verräther ihrer Herrschaften aus Eigennutz. O autor de "Meine Empfindungen im Theater" escreveu: "Cavalieri [...], que ganhou uma boa reputação entre os conhecedores como uma das principais cantoras e que delicia os ouvidos mesmo daqueles que não entendem nada de música, cantou no papel de Fräulein [Nannete]. Sua atuação melhora a cada dia e é perceptível o quanto ela se dedica enquanto divide o palco com outros - ela adquiriu mais energia, exatidão e habilidade. Nas partes faladas ela não tem naturalidade o suficiente: ela ainda enfatiza em excesso as últimas sílabas das palavras e encurta tanto a última palavra de cada frase que torna tudo muito difícil de compreender. Seus braços ainda são muito rígidos; eles ficam muito inclinados para a frente e não estão relaxados. Mesmo assim ela já se tornou capaz de ser muito expressiva. Ela tem uma excelente noção de decoro no seu porte e nas suas feições, e em breve nos agradará como atriz tanto quanto o faz como cantora."

Mozart dedicou-lhe os papéis de Konstanze em Die Entführung aus dem Serail K.384 (estréia em 16 de julho de 1782), e Mlle. Silberklang em Der Schauspieldirektor K.486 (estréia em 7 de fevereiro de 1786), além de importantes peças vocais, como a ária Fra l'oscure ombre funeste, para a cantata Davidde penitente K.469 e a ária In quali eccessi, o Numi... Mi tradì quell'alma ingrata K.540c para a estréia vienense de Don Giovanni K.527, no papel de Donna Elvira, em 7 de maio de 1788. Além disso, Katherina cantou no papel de Galatea na reorquestração de Acis and Galatea K.566 de Händel, em novembro de 1788 e no papel de Contessa Almaviva na reapresentação vienense de Le nozze di Figaro K.492, com Adriana Ferraresi e Francesco Benucci em 29 de agosto de 1789. Mozart também tinha Cavalieri em mente quando escrevera o papel de Bettina em sua ópera incompleta Lo sposo deluso K. 430/424a, ainda em 1783.

Cavalieri também fez sucesso na Ópera Italiana: esta iniciara sua nova fase com a ópera La scuola de' gelosi, de Salieri em 22 de abril de 1783, com Katherina no papel de Esnestina.

No verão de 1785, Katherina participou da ópera Giulio Sabino de Sarti, no papel de Epponina, esposa de Sabino, com o castrato Luigi Marchesi (Giulio Sabino) e Adamberger (Tito). Salieri e outros compositores contribuíram com números musicais transformando a ópera num pasticcio. Na gravura feita na ocasião vêem-se Sabino despedindo-se de Epponina e seus filhos. Marchesi nesse momento canta a ária "Cari oggetti del mio core" de Angelo Tarchi em substituição à ária original "Cari figli, un altro amplesso" de Sarti. O Conde Zinzendorf escreveu em seu diário: "[...] No dueto, Cavalieri encobriu a voz de Marchesini com seus gritos."

A partir do final da década de 1780, sua voz entrou em declínio, e era cada vez mais comum Katherina cancelar apresentações devido a indisposição. A última vez que Katherina encontrou-se com Mozart ocorreu provavelmente quando ela e Salieri assistiram juntos a uma apresentação de Die Zauberflöte K.620, a convite do compositor, em 13 de outubro de 1791.

Seu relacionamento íntimo com Salieri nunca foi amplamente comprovado, mas foi sugerido pelo libretista Lorenzo da Ponte em suas memórias. O libretista percebeu que Salieri, antes seu grande aliado, tornava-se pelo fim da década de 1780 um rival, espelhando-se na rixa entre Cavalieri e a amante do libretista, Adriana Ferraresi del Bene. O libretista respondeu usando de sua influência na escolha de cantores para indicar La Ferraresi no lugar de Cavalieri. Em uma audiência com o Imperador Leopold II, da Ponte se teria referido a Cavalieri como a "bella" de Salieri.

Katherina Cavalieri aposentou-se em 1793, e faleceu em Viena, 30 de junho de 1801.


ARQUIVOS MIDI:

 

Die Entführung aus dem Serail K.384

N.6 Aria - Ach, ich liebte (ária de Konstanze - 1º ato)


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