Constanze Weber Mozart (Nissen) (1762-1842)


Constanze Weber nasceu em Zell im Wiesental, Alemanha, em 5 de janeiro de 1762, filha de Fridolin Weber (1733-1779) e Maria Cäcilia Weber (1729-1793). No mesmo ano de seu nascimento, toda a família mudou-se para a cidade de Mannheim, Alemanha (Constanze tinha três irmãos mais velhos: Josepha, Johann Nepomuk e Aloisia; sua irmã mais nova chamava-se Sophie. Dois outros irmãos morreram na infância). Acredita-se que Constanze tenha sido educada na Congregação beatae Mariae virginis de Mannheim. Além disso, como suas irmãs, Constanze recebeu educação musical (piano e canto). Quando os Weber conheceram Mozart em 1777 ou 1778, época em passavam por sérias dificuldades financeiras, Constanze tinha dezesseis anos e não é mencionada em nenhuma das cartas do compositor a seu pai Leopold (1719-1787).

Quando sua irmã mais velha Aloisia foi contratada como cantora da ópera de Munique no final de 1778, toda a família a acompanhou. Esta foi uma fase de melhor situação financeira para a família Weber. Eles se mudaram para Viena em setembro de 1779, onde Aloisia foi contratada pela Ópera Alemã.

O fato de Constanze nunca ter pisado em um palco profissionalmente (apesar de ser soprano como suas irmãs) é atribuído pelos historiadores ao fato de sua voz ser medíocre e que não era comparável à voz de suas irmãs Josepha e Aloisia. E este é apenas um lado de sua vida a ser massacrado pelos historiadores. Mas se examinarmos as peças que Mozart escreveu para ela, podemos considerar que sua voz não era tão ruim quanto se pensa, pelo contrário: ela possuía uma extensão vocal e agilidade bastante consideráveis.

Fridolin Weber faleceu pouco tempo depois da chegada da família a Viena. Após esse fato, Cäcilia teve de alugar quartos de sua casa em Zum Auge Gottes para conseguir manter a si e a suas filhas, e Aloisia passou então a ser o suporte da família. Além disso, acredita-se que seu irmão Johann Nepomuk tenha falecido em 1780, deixando as cinco mulheres quase ao desamparo. Johann Thorwart tornou-se o tutor das Weber.

Em maio de 1781, quando Mozart já estava em Viena e tinha sido demitido do serviço do Arcebispo Colloredo de Salzburgo, tornou-se locatário de um dos quartos da casa de Cäcilia Weber. Logo correram rumores sobre o futuro casamento de Mozart e Constanze. A princípio, Mozart revoltou-se contra esses boatos, mas pouco tempo depois pediu a seu pai permissão para seu casamento. Consta em suas cartas que Mozart apresentou a Constanze as fugas de J. S. Bach (1685-1750), e Constanze teria se apaixonado por elas.

Constanze é descrita a seu pai da seguinte forma (em detrimento de suas irmãs): "Ela não é feia, mas ninguém pode dizer que ela é realmente bela. Sua beleza consiste em dois pequenos olhos negros e uma bonita aparência. (...) Ela tem suficiente compreensão humana para poder cumprir seus deveres de esposa e mãe. Não é inclinada ao luxo (...). Ela mesma faz seu penteado todos os dias. Ela sabe cuidar de uma casa - eu a amo e ela a mim de todos os nossos corações!"

Segundo suas cartas ao pai, Mozart divertia-se muito com as irmãs Sophie e Constanze, especialmente com a última. Um exemplo é o movimento de sonata em Si bemol Maior K.400/372a, escrito em 1782, no qual, durante o desenvolvimento, Mozart escreveu os nomes Sophie e Constanze sobre duas frases:

 

Outro exemplo está no livro de orações de Constanze, no qual lêem-se algumas brincadeiras, escritas por Mozart e Constanze. Datam também da época do noivado e do início do casamento os Solfeggi K.393, que revelam que Constanze tinha uma voz realmente bastante ágil e extensa.

A realização deste casamento, porém, não foi fácil. A julgar pelo teor das cartas do compositor ao pai, Leopold achava que Cäcilia apenas queria explorar Mozart de maneira que ela se livrasse do dispêndio de mais uma filha em casa. A princípio Mozart havia negado o fato de querer se casar com Constanze, mas assumiu mais tarde estar apaixonado por ela.

Além disso, Thorwart e Cäcilia Weber estavam alarmados com a excessiva intimidade entre Mozart e Constanze. Depois de constantes discussões e cenas desagradáveis, Constanze fugiu para a casa da Baronesa Waldstätten (protetora de Mozart em Viena), em novembro de 1781, onde passou um mês. Constanze voltou para casa. Os boatos corriam em Viena de tal maneira que Thorwart obrigou Mozart a assinar um contrato no qual assumia que iria casar com Constanze dentro de três anos, ou então pagar a ela uma pensão de 300 gulden anuais. Naquela época era muito degradante para moça solteira aceitar a corte de uma pessoa que não tivesse a intenção de casar com ela.

Apesar de todas as dificuldades, o casamento ocorreu em 4 de agosto de 1782 na Catedral de São Estêvão, um dia antes do consentimento de Leopold.

Há uma contradição entre as opiniões dos historiadores acerca da conduta de Constanze Mozart. Enquanto alguns dizem que ela era uma pobre mulher que teve que suportar os excessos do marido, outros dizem que ela era irresponsável, péssima mãe e propensa aos gastos. No meio desses contra-sensos, podemos afirmar apenas que o rendimento anual de Mozart era quase sempre suficiente para o casal manter-se com decência, mas eles estavam quase sempre cobertos de dívidas, especialmente durante os últimos anos do casamento. Não se pode afirmar com certeza quem era o responsável pelos gastos.

Constanze e Mozart tiveram seis filhos: Raimund Leopold (n.m.1783), Carl Thomas (1784-1858), Johann Thomas Leopold (n.m.1786), Theresia Constanzia Adelheid Friederike Maria Anna (1787-1788), Anna Maria (n.m.1789) e Franz Xaver Wolfgang (1791-1844). Após tantas gravidezes, Constanze sofria especialmente de dores nos pés. Por esse motivo, ela passava várias estadas dispendiosas no spa da cidade de Baden, perto de Viena.

Leopold e Nannerl Mozart só conheceram Constanze no verão de 1783, quando o casal visitou Salzburgo. Constanze tinha acabado de dar à luz seu primeiro filho, Raimund Leopold (nascido em 17 de junho de 1783), que havia sido deixado em Viena, aos cuidados de uma enfermeira. Em Salzburgo, Constanze cantou uma das partes de soprano solo na Grosse Messe em Dó Menor K.427/417a na Abadia de São Pedro em 26 de outubro de 1783.

Os Mozart provavelmente só descobriram que seu filho havia morrido quando chegaram a Viena no final de novembro de 1783. A morte de Raimund Leopold ocorrera em 19 de agosto de 1783, causada por cólicas intestinais. A mortalidade infantil não era de causar estranheza naquela época, mas sim os relatos de Mozart a Leopold sobre seu filho: "Parabéns, o senhor é vovô! Ontem, dia 17, às seis e meia da manhã, minha querida esposa deu à luz em segurança a um grande e robusto menino, redondo como uma bola." (18 de junho); "O pequeno Raimund parece tanto comigo que todos imediatamente percebem. Ele é minha própria imagem. Minha esposa está muito contente, porque isso é o que ela sempre quis." É difícil para que os historiadores consigam conciliar a imagem de uma criança tão saudável com uma morte tão prematura.

Leopold retribuiu a visita de Mozart e Constanze em 1785, ficando de 11 de fevereiro a 25 de abril com o casal em Viena. Constanze já tinha tido outro filho, Carl Thomas (nascido em 21 de setembro de 1784), que sobreviveria.

Tudo indica que Mozart e Constanze, apesar das constantes dificuldades financeiras, eram felizes. O tenor Michael Kelly (1762-1826), em suas reminiscências (Reminiscences, 1826), descreve Constanze como "uma dama alemã por quem Mozart estava muito apaixonado". Apesar de Mozart reprová-la por algumas indiscrições (cartas de 29 de abril de 1782 e agosto de 1789), eles continuaram felizes como indicam várias brincadeiras em cartas escritas por Mozart em 1791, quando Constanze estava em Baden.

Segundo Constanze, no verão de 1791, um mensageiro desconhecido trouxe uma carta anônima perguntando se Mozart poderia escrever um Requiem, e, se ele aceitasse, que expusesse suas condições de pagamento e entrega da partitura. Ao aceitar, Mozart teria sido avisado para não tentar descobrir quem havia encomendado o Requiem, que seria inútil. Mozart, ocupado com a composição de La Clemenza di Tito K.621 e Die Zauberflöte K.620 e doente, não conseguia dedicar-se integralmente ao Requiem, o que teria provocado a impaciência do mensageiro, que aparecia como um fantasma. Mozart, quando estava mais próximo de sua morte, estaria acreditando que escrevia o Requiem para si próprio. Após a morte de Mozart (diversos relatos alegam que Constanze havia sentido muito esse fato), em 5 de dezembro de 1791, o mensageiro teria aparecido e levado consigo o Requiem incompleto. Sabe-se hoje que o mensageiro vinha em nome do Conde Walsegg (que queria o Requiem em homenagem a sua esposa Anna, falecida em 14 de fevereiro de 1791, aos vinte anos), que publicava trabalhos alheios como sendo seus.

Viúva e com dois filhos (Franz Xaver Wolfgang havia nascido em 26 de julho de 1791), Constanze pediu em 11 de dezembro ao Imperador Leopold II uma pensão por seu marido ter trabalhado como compositor da corte (embora não fosse legal, porque Mozart tinha trabalhado por poucos anos), o que só foi concedido por Francis II em 13 de março de 1792. A pensão era de 266 gulden anuais.

Após a morte de Mozart, Constanze é estranhamente tomada de uma força de vontade e um senso de negócios obscurecidos até então. Desde então ela não voltou ao spa de Baden, e estava empenhada em vender as composições de seu marido a editores famosos, e até ao rei da Prússia. Convidou vários compositores para a finalização do Requiem, como Eybler, etc., até se decidir pelo ex-aluno de Mozart, Franz Xaver Süssmayer (1766-1803). Organizou produções da ópera La Clemenza di Tito K.621, e vários concertos, em vários dos quais participaram Aloisia Weber Lange e o pianista Anton Eberl (que havia composto a cantata Bey Mozarts Grabe em 1791). Constanze possuía então uma vida bastante ativa.

Constanze conheceu em 1797 o diplomata dinamarquês Georg Nikolaus Nissen (1761-1826), que tornou-se seu amigo e conselheiro, escrevendo cartas em nome dela e supervisionando os exames das partituras de Mozart a serem vendidas por sua viúva. Em setembro de 1798 eles viviam juntos em Judengässchen. Eles deixaram Viena durante o ataque que Napoleão Bonaparte à cidade e casaram-se em 1809 em Pressburgo (Bratislava). Em 13 de agosto voltaram a Viena. Em 1810 Nissen demitiu-se de seu cargo de diplomata e viveu até 1821 com Constanze em Copenhagen, e de 1821 a 1826 em Salzburgo. Nissen faleceu em 24 de março de 1826.

Em 1823 Constanze ajudou Nissen a escrever uma biografia sobre Mozart, contando também com relatos de Sophie Weber Haibel (c.1763-1846). Após a morte de Nissen o livro ainda estava incompleto, e Constanze pediu a Johann Heinrich Feuerstein para completá-lo.

Em 1826, com a morte de Nissen, Constanze passou a viver em Salzburgo em companhia de Sophie, que também enviuvara naquele ano. Aloisia também as acompanhou alguns anos depois, mas não viveu em casa delas.

Em 1829 Mary e Vincent Novello, que escreveram uma biografia de Mozart, visitaram Constanze em Salzburgo, escrevendo diversos relatos (verdadeiros ou não) sobre a vida do compositor. Eles a visitaram novamente em abril de 1838. Constanze morreu seis meses depois que uma estátua de Mozart foi erguida em Salzburgo, diante da casa onde ela morava. Sua morte ocorreu em 6 de março de 1842, às 3:45 da madrugada, de parada respiratória, de acordo com o registro de óbitos da Catedral de Salzburgo. Segundo com o Salzburger Zeitung, "[...] Ela veio de uma família altamente respeitada: seu pai, Fridolin von Weber, que era o principal magistrado de Freiburg, e sua mãe Cäcilia, pertencia à nobre família Stamms-Stamm". Há bastante exageração neste artigo que foi publicado na primeira folha do jornal. O mesmo relata ainda que "O enterro da viúva de Mozart aconteceu em 8 de março; a cerimônia foi comovedora e impressionante. Seus restos mortais foram consagrados pelo nobre Reverendo Schumann, do clero da Catedral, seguido por uma peça de coral - uma bela composição do diretor do coro Daisbeck. A procissão começou então, guiada pelos muitos estudantes do Mozarteum, a escola de música recentemente fundada no Dommusikverein. Eles foram precedidos pela banda da escola. Servos dos mais proeminentes cidadãos de Salzburgo carregaram o caixão. outros funcionários importantes os seguiram, junto com os membros do Comitê Mozart e de oficiais do Dommusikverein. O corpo discente do Liceu também fazia parte da procissão." Constanze foi sepultada no Cemitério de São Sebastião.

Assim terminava a vida desta mulher incomum para sua época, por ser independente e determinada, pelo menos nos últimos anos de sua vida. Seu cuidado com sua imagem faz com que não saibamos ao certo se Constanze era inocente ou culpada das tantas acusações que lhe fazem os historiadores. Suas companheiras em suas últimas horas foram sua irmã Sophie e sua criada.


Parentes e amigos

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