Documentos - Cartas


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TRADUÇÃO: CAMILA ARGOLO E CAIA FITTIPALDI


1755

 

Leopold Mozart a Johann Jakob Lotter, em Augsburgo

Salzburgo, 21 de julho de 1755

 

        [...] Todos os meus irmãos e irmãs estão agora casados; e cada um recebeu 300 florins como adiantamento da futura herança de minha mãe1 [...]. E eu ainda não recebi nada.

 

1 Anna Maria Sulzer Mozart, mãe de Leopold Mozart, com quem este último tinha um relacionamento difícil.

 

Leopold Mozart a Johann Jakob Lotter, em Augsburgo

Salzburgo, 11 de setembro de 1755

 

        [...] Estou pensando em me hospedar em Augsburgo com a minha [mãe]. Mas quem sabe, talvez ela não tenha um quarto para mim, pois não só meus dois irmãos, mas especialmente minhas duas irmãs já casaram, então certamente não sobraram camas, senão a dela própria e a da sua criada [...]. Talvez o senhor possa encontrar algum bom amigo que possa me hospedar.

         [...] Não fale muito sobre minha chegada, tratam-se de meus irmãos e irmãs, eles poder estragar o assunto com minha mãe1.

 

1 A questão dos 300 florins que Leopold Mozart nunca recebera de sua mãe após seu casamento, e que agora precisava para a publicação de seu Violonschule.

 

Leopold Mozart a Johann Jakob Lotter, em Augsburgo

Salzburgo, 15 de dezembro de 1755

 

        [...] Infelizmente é verdade, embora ela permaneça minha mãe por todo o sempre, ela é uma desgraçada e tem pouquíssimo bom senso. Este último fato não é sua culpa, e aquele é a vontade de Deus [...]; pois ela não confia em mim, que sou seu filho; enquanto isso, porém, ela deixa seus outros filhos abusarem do que é seu.1

       [...] Espero que sua esposa já tenha dado à luz [...]. Minha própria esposa, que tem a mesma tarefa a cumprir mais ou menos no fim de janeiro, também tem o mesmo desejo que eu, do fundo de seu coração.

 

1 Leopold Mozart não recebeu nenhuma ajuda de sua mãe para a publicação do Violonschule.


1756

 

Leopold Mozart a Johann Jakob Lotter, em Augsburgo

Salzburgo, 9 de fevereiro de 1756

 

        No dia 27 de janeiro, às 8 horas da noite, minha esposa deu à luz um menino. Foi-lhe  necessário retirar a placenta. Após isso ela ficou incrivelmente fraca. Mas agora mãe e filho estão passando bem, graças a Deus. Ela manda lembranças para vocês dois. O nome do menino é Joannes Chrysostomos, Wolfgang, Gottlieb.

 

Leopold Mozart a Johann Jakob Lotter, em Augsburgo

Salzburgo, 12 de fevereiro de 1756

 

        [...] Eu lhe asseguro, tenho tido tanto a fazer que não sei onde ando com a cabeça. Certamente não é pela composição, mas pelos muitos alunos e pelas óperas na Corte. E o senhor sabe tão bem quanto eu que quando a esposa está convalescendo, sempre há alguém querendo tomar seu tempo. Essas coisas custam tempo e dinheiro.

 


1762

 

Leopold Mozart a L. Hagenauer, em Salzburgo

Viena, 16 de outubro de 1762

 

          Monsieur mon trés cher ami

          No dia do Festejo de São Francisco [de Assis, 4 de outubro], nós partimos de Lintz [sic] às quatro e meia da tarde [...]. Na quarta-feira [6 de outubro] nós chegamos a Viena às três horas [...]. Chuva constante e vento nos acompanharam por toda a viagem; Wolfgang pegou um resfriado em Lintz, mas apesar de toda a desordem, acordar cedo, comer e beber irregularmente, a chuva e o vento, nós continuamos com saúde, graças a Deus [...]. Quando chegamos, o criado do H[err]: Gilowsky já nos esperava, e veio nos receber a bordo. Ele nos levou para nosso apartamento, mas logo corremos para uma taverna para matar nossa fome; antes de fazê-lo, guardamos nossa bagagem com segurança no apartamento. Então H: Gilowsky1 veio apresentar-nos seus cumprimentos. Agora estamos aqui há oito dias e sequer sabemos a que horas o sol nasce em Viena: pois até este instante só tem chovido e há um, vento constante que trouxe alguma neve - podíamos mesmo ver um pouco nos telhados. [...] Não tem feito muito gelado, mas bastante frio. Preciso lhe contar uma coisa, nós passamos pela alfândega com a maior tranqüilidade e fomos totalmente isentos das taxas. H: Wolferl foi o responsável, pois fez logo amizade com o diretor da alfândega, mostrou-lhe o clavier2, convidou-o para nos visitar, tocou um minueto no seu pequeno violino, e isso nos fez passar sem aborrecimentos. O diretor pediu-nos com a maior polidez permissão para nos fazer uma visita, e anotou nosso endereço com esse intuito [...].

        [...] Até agora, apesar do clima horrível, nós já participamos de uma Academia [ou seja, um concerto] na residência do Conde Collalto, onde a Condessa von Sinzendorf [Zinzendorf] nos apresentou ao Conde Wilschegg e, no dia 11, Sua Excelência o Vice-Chanceler Imperial, Conde v[on] Colloredo, em cuja residência tivemos a honra de conversar com os primeiros ministros e damas da corte imperial, como: o Chanceler Húngaro, Conde Palfi [Pálffy] e o Chanceler da Boêmia, Conde Coteck [Chotek], juntamente com o Bispo Esterházy [Carl Eterházy, Bispo de Erlau], e vários outros cujos nomes não lembro. Todos, especialmente as damas, foram muito corteses conosco. A noiva do Conde Leopold Künburg [Kühnburg, camarista-mor de Salzburgo] começou a conversar com minha esposa e disse-lhe que seu casamento será celebrado em Salzb[urgo]. Ela é uma dama bonita e amigável, de estatura mediana. Ela espera a chegada de seu noivo a Viena hoje. A Condessa v[on] Sinzendorf preocupa-se bastante com o nosso bem estar, e todas as damas se apaixonaram pelo menino. Agora todos estão falando sobre nós, e quando eu fui à ópera [Orfeo ed Euridice, de C. W. Gluck] sozinho, no dia 10, ouvi o Arquiduque Leopold [futuro Imperador Leopold II] em seu camarote falando a uma pessoa em putro camarote sobre como um menino recém-chegado a Viena tocava cravo brilhantemente, etc. Na mesma noite às 11 horas recebi a ordem de me apresentar em Schönbrunn no dia 12, mas no dia seguinte recebi outra ordem alterando a data para o dia 13, pois o dia 12 é o onomástico do Arquiduque Maximilian e [portanto] dia de gala, pois, segundo soube, eles querem ouvir as crianças tocando. Eles estão maravilhados principalmente com o menino, e não conheci ninguém que não o considerasse inexplicável [...].

      Eu escrevi tudo isso no dia 11 com a firme intenção de lhe escrever [...] depois que retornássemos de Schönbrunn, e contar-lhe como tudo ocorreu. Mas de Schönbrun[n] tivemos de ir diretamente a [residência do ] Príncipe von Hildeburgshausen, e 6 ducados foram o peso real da carta que nos convidava [...]. Agora o tempo não me permite mais do que dizer-lhe às pressas que fomos recebidos por Suas Majestades de maneira extremamente honrosa, e se eu contar que Wolferl pulou no colo da Imperatriz, abraçou-a e cobriu-a de beijos, pensariam que se trata de uma fábula. Em resumo, ficamos lá das três às seis e o próprio Imperador [Franz I Stephen] veio em pessoa buscar-me na antecâmara para outro aposento, para que eu ouvisse a Infanta [Isabella de Parma, casada com o Arquiduque Joseph] tocar violino. No dia 15, a Imperatriz enviou, através de seu tesoureiro particular que chegou em nosso apartamento vestido de gala, dois trajes de corte: um para o menino e outro para a menina; no momento em que chegasse nova ordem de comparecermos  ao palácio, o tesoureiro viria buscar-nos. Hoje às duas e meia da tarde deveremos acompanhar as duas Arquiduquesas mais jovens[Maria Carolina e Maria Antonia, futura Marie Antoinette da França], às quatro deveremos visitar o Conde Pálfi [Pálffy], o chanceler húngaro. Ontem estivemos com o Conde Caunitz [Kaunitz, chanceler austríaco], no dia anterior com a Condessa Küntzgin [Kinsky]  e mais tarde com o Conde v[on] Ulefeld [Ulfeld] [...].

        

1 Um amigo da família Mozart.

2 Talvez um clavicórdio.

 

Leopold Mozart a L. Hagenauer, em Salzburgo

Viena, 19 de outubro de 1762

 

          O senhor já deve ter recebido minha [última] carta. Hoje pela manhã fui convocado para visitar o tesoureiro particular [da Imperatriz], que me recebeu com a maior cortesia. Sua Majestade [o Imperador Franz I Stephen] desejava saber se eu poderia permanecer [em Viena] por mais algum tempo. Eu humildemente me coloquei à disposição de Sua Majestade. O tesoureiro então pagou-me 100 ducados, acrescentando que Sua Majestade nos convocaria novamente. Porém eu analisei a situação, e na realidade dificilmente voltarei para casa antes da quaresma. De qualquer forma solicitarei desde já uma permissão para prolongar minha ausência; mesmo que eu possa deixar Viena em duas ou três semanas, eu teria que viajar lentamente por causa das crianças, para que elas tenham alguns dias de descanso e não adoeçam [...]. Se eu conseguir uma boa carruagem por um preço decente, posso me sentir tentado a comprá-la, para que meus filhos tenham mais conforto. Hoje estivemos na residência do Embaixador da França.

          Amanhã temos um compromisso na residência do Conde Harrach das quatro às seis horas, mas não sei de que parte da família ele é. Eu descobrirei a tempo enquanto a carruagem me levar até lá, pois sempre que visitamos uma casa nobre sempre somos levados por um lacaio e trazidos para casa da mesma forma. Das seis ou seis e meia às nove, por 6 ducados, participaremos de um grande concerto promovido por um rico membro da nobreza, no qual os maiores virtuosi que estão em Viena se apresentarão. A nobreza nos convida com quatro, cinco, seis, até oito dias de antecedência, para não perderem a chance de nos receber. Nós somos portanto esperados pelo diretor geral dos correios, Conde Paar, na próxima segunda. Wolferl anda muito de carruagem, pelo menos duas vezes ao dia. Numa ocasião nós fomos às 2 e meia a um certo palácio, onde ficamos até as 3:45h; de lá o Conde Hardek [Hardegg] nos mandou buscar com sua carruagem e fomos levados a toda velocidade à residência de uma dama onde ficamos até às 5 e meia. De lá, o Conde Kaunitz nos levou ao seu palácio, e lá ficamos até quase nove horas. Mal posso escrever: a pena e a tinta são terríveis e preciso roubar tempo para escrever. Não tenho nada de novo para lhe informar, pois a guerra [dos Sete Anos] é tão pouco discutida que é como se não houvesse guerra alguma. Nunca em minha vida li tão poucos jornais como nas quatro ou cinco semanas em que estive fora de Salzburgo [...].

          O senhor quer saber como é o traje de Wolferl? - Ele é feito do melhor tecido, na cor lilás. O colete é de seda moiré, na mesma cor; a casaca e o colete são bordados com fitas douradas entrelaçadas. O traje era destinado ao Príncipe [ou seja, Arquiduque] Maximilian, e o vestido de Nannerl era de uma das princesas1. Ele é feito de tafetá branco com brocados, com milhares de enfeites. É pena que ele só poderá ser usado como saia de baixo2, mas ele também veio com o pequeno corpete. Está página está repleta, e eu não tenho mais tempo. Meus cumprimentos para todos em Salzburgo, e sou [etc.].

 

1 Provavelmente Maria Johanna ou Maria Josepha.

2 No original gotillon, ou seja, cotillon.

 

Leopold Mozart a L. Hagenauer, em Salzburgo

Viena, 30 de outubro de 1762

 

          A felicidade é extremamente passageira. Por duas semanas eu venha tendo a sensação de nossa felicidade era excessiva; Deus nos enviou uma pequena cruz para que carregássemos e nós agradecemos sua imensa generosidade por tudo que nos ocorreu. No dia 21 à noite nós fomos convidados novamente por Sua Majestade a Imperatriz; antes de irmos Wolferl não estava se sentindo bem, e quando ele foi para a cama, ele disse que sentia dores (perdoe-me) na parte traseira e nos pés. Quando ele estava deitado, eu examinei as partes onde ele disse sentir dor e descobri várias manchas vermelhas, cada uma do tamanho de um[a moeda de] kreutzer [sic], que eram muito avermelhados e um pouco inchados [erythema nodosum] e que eram dolorosos ao toque. Mas elas se localizavam em apenas em ambas as canelas, nos cotovelos, e algumas poucas na parte posterior; mas eram muito poucas. Ele tinha febre, e nós lhe demos pó preto [Pulvis epilepticus niger] com pó margrave1. Ele dormiu um tanto inquieto. Na sexta-feira seguinte, nós repetimos os pós pela manhã e pela noite, mas descobrimos que as manchas haviam crescido; embora estivessem maiores, não haviam crescido em número. Nós mandamos recados para todos os nobres com os quais tínhamos compromissos durante os 8 dias seguintes, e cancelamo-los todos. Continuamos a dar-lhe o pó margrave e no domingo ele começou a suar, como queríamos, pois até então sua febre tinha sido seca. Por acaso encontrei o médico da Condessa v[on] Sinzendorf [...] e contei-lhe o que havia ocorrido. Ele veio comigo imediatamente. Ele aprovou tudo o que vínhamos fazendo; ele disse que era uma espécie de [...] febre escarlatina [...].

          Graças a Deus, ele se recuperou o suficiente para termos a esperança de que ele poderá se levantar em dois dias, se não amanhã [...]. Eu lhe imploro, faça tudo o que puder para verificar o que o Arcebispo pretende fazer no futuro, e que esperança posso ter quanto à posição de vice-kapellmeister2. Eu não lhe peço em vão. O senhor é meu amigo. Quem sabe o que eu faria se ao menos soubesse o que me espera no futuro; uma coisa é certa, no momento estou em circunstâncias tais que eu poderia viver aqui com a mesma facilidade.

          Ainda assim eu prefiro Salzburgo às possibilidades oferecidas em qualquer outro lugar: mas não devo retroceder. Eu lhe peço novamente: senão posso sentir-me persuadido por outros a - não sei o quê [...].

 

1 Inventado pelo químico alemão Andreas Sigismund Marggraf (1709-1782).

2 Posição para a qual Leopold Mozart seria promovido em fevereiro de 1763.

 

Leopold Mozart a L. Hagenauer, em Salzburgo

Viena, 6 de novembro de 1762

 

          [...] Ontem nós recompensamos o nosso bom Dr. Bernhard1 com um concerto [...]. Por favor, eu lhe peço em nome de nossa afeição e amizade, pressione Sua Excelência o Conde Spauer [Spaur] [...]. O senhor pode lhe falar abertamente sobre o cargo de kapellmeister, pois ele é completamente favorável a meu respeito. O senhor pode imaginar o quanto me seria benéfico ser indicado para o cargo enquanto ainda me encontrasse aqui? -  -

           Desde que cheguei, as pessoas dirigem-se a mim como kapellmeister de Salzburgo; e o próprio Imperador, quando quis me conduzir para ouvir a Infanta tocar violino, disse, "onde  está o kapellmeister de Salzburgo?".

 

1 Que havia tratado a doença de Wolfgang.

 

Leopold Mozart a L. Hagenauer, em Salzburgo

Viena, 10 de novembro de 1762

 

          [...] O senhor Wolferl lhe agradece pela sua bondosa lembrança por seu onomástico; ele não estava satisfeito com as lembranças de onomástico daqui de Viena; ele achou que poucas pessoas vieram parabenizá-lo. Ele deseja saber se o cravo [clavier] vai bem - ele pensa nisso com freqüência; pois não encontramos nenhum que se lhe comparasse aqui. Nós traremos conosco uma boa quantidade de concertos novos. Mandamos copiar dez, e outros dozes estão sendo copiados agora. E todos são de Wagenseil [...].

 


1763

 

Leopold Mozart a L. Hagenauer, em Salzburgo

Wasserburg, 11 de junho de 1763

 

        A última notícia é que, indo para o órgão [da Catedral de Wasserburg] para nos divertirmos, eu expliquei a Wolferl o uso dos pedais. Ele imediatamente começou a tentar, empurrou o banquinho para o lado, preludiou, e pisou nos pedais, e isto, realmente, era como se ele tivesse praticado há muitos meses atrás. Todos ficaram atônitos, e isto é uma nova graça de Deus, tal qual muitos só recebem após muito esforço.

 

Leopold Mozart a L. Hagenauer, em Salzburgo

Frankfurt, 20 de agosto de 1763

 

        Nosso concerto ocorreu no dia 18. Foi bom. Todos ficaram atônitos. Pela graça de Deus estamos com saúde, Deus seja louvado, e somos em todo lugar objetos de admiração. Sobre nosso Wolfgangerl, ele está extraordinariamente alegre, mas também muito travesso. A pequena Nannerl não sofre mais com as comparações a seu irmão, pois ela toca de tal forma que todos falam dela e maravilham-se com sua  competência.


1764

 

Leopold Mozart a Frau Hagenauer, em Salzburgo

Paris, 1 de fevereiro de 1764

 

        Quatro sonatas do Sr. Wolfgang Mozart estão agora sendo impressas! Imagine o alvoroço que irá causar no mundo o fato de que estará impresso na capa que a obra é de uma criança de sete anos; e, quando os incrédulos são desafiados a por isso em prova (como já ocorreu), ele convida alguém para escrever um minueto, ou algo do gênero, e então ele imediatamente  (sem tocar no cravo) escreve o baixo, e, se desejado, também a parte do segundo violino! Em boa hora a senhora ouvirá quão boas são essas sonatas; há um andante entre elas de gosto bastante singular. E eu posso assegurar-lhe, querida Frau Hagenauer, que Deus produz milagres diariamente nessa criança. Em nosso retorno a casa (se Deus quiser) ele estará em posição de ser oficial da corte. [...] Quando ele está acompanhando um concerto público, ele transpõe árias realmente a prima vista; e em qualquer lugar ele toca dessa maneira qualquer peça que ponham diante dele, seja italiana ou francesa.

 

Leopold Mozart a L. Hagenauer, em Salzburgo

Paris, 1 de fevereiro de 1764

 

        O senhor pode imaginar a estupefação dos franceses tão apegados à etiqueta da corte, quando as filhas do Rei [Louis XV], não apenas nos seus aposentos, mas também nos corredores, ficavam admirando meus filhos, aproximavam-se deles, e não só deixavam que lhes beijassem as mãos, como elas próprias faziam o mesmo aos meus filhos. Isso ocorreu de maneira semelhante com Madame Dauphine [Delfina Maria Josepha da Saxônia].

        Mas o que mais terá parecido extraordinário aos franceses foi que, no banquete da noite de Ano Novo, tiveram de nos ceder lugar na mesa real. Ainda mais, colocaram o meu Senhor Wolfgang ao lado da Rainha, e ele teve a honra de conversar continuamente com ela, para distraí-la; ele beijava-lhe as mãos diversas vezes, e ela oferecia-lhe diversos dos pratos que estavam sobre a mesa.

 

Leopold Mozart a L. Hagenauer, em Salzburgo

Paris, 1 de abril de 1764

 

        M. de Mechel, um gravador, está trabalhando dia e noite para gravar nosso retrato, que Herr von Carmontel (um amador) pintou tão bem. Wolfgang toca cravo, eu fico atrás de sua cadeira e toco o violino, e  Nannerl está com um braço sobre o cravo, e com o outro está segurando uma partitura enquanto canta.

 

Leopold Mozart a L. Hagenauer, em Salzburgo

Londres, 28 de maio de 1764

 

        [...] Tudo estará bem se continuarmos com saúde, e se Deus conservar a saúde do nosso insuperável Wolfgang! O Rei [George III] colocou diante dele algumas peças de Wagenseil, e também outras de [J. C.] Bach, Abel e Handel, e ele as tocou todas a prima vista. Ele tocou no órgão do Rei de tal maneira que todos acharam que ele é ainda muito, muito melhor no órgão do que no cravo. Ele então acompanhou a Rainha em uma ária e um flautista em um solo. Finalmente ele pegou a parte de violoncelo de uma das árias de Handel, que estavam por ali, e sobre o baixo apenas ele compôs uma belíssima melodia, de tal forma que todos foram levados ao mais extremo encantamento. Em resumo: o que ele sabia quando saiu de Salzburgo era uma mera sombra em comparação ao que ele sabe agora. Está acima de qualquer imaginação.  

 

Leopold Mozart a L. Hagenauer, em Salzburgo

Londres, 27 de novembro de 1764

 

        [...] Agora faço parte da Ordem das Calças Remendadas [...].¹

 

¹ Referência ao casamento.


1766

 

Leopold Mozart a L. Hagenauer, em Salzburgo

Munique, 15 de novembro de 1766

 

        Deus - que é bondoso para comigo, um pecador - deu aos meus filhos um imenso talento [...], estimulando-me a sacrificar tudo pela educação deles. Cada momento desperdiçado está perdido para sempre. Se eu nunca soube da preciosidade do tempo na juventude, eu o sei hoje [...]. O senhor sabe que meus filhos se habituaram a trabalhar. Se eles arranjassem desculpas para evitar o trabalho, desperdiçando seu tempo preguiçosamente, tudo o que construí ruiria por terra [...]. O senhor sabe o quanto eles, principalmente Wolfgang, ainda precisa aprender.


1768

 

Leopold Mozart a L. Hagenauer, em Salzburgo

Viena, 30 de janeiro de 1768

 

        [...] Agora, para convencer o público local do que está acontecendo, decidi que algo extraordinário deve ocorrer, que é o fato de Wolfgang escrever uma ópera para o teatro [La finta semplice K.51/46a]. O senhor pode imaginar o barulho que haverá nos bastidores, entre os compositores? Quê? Hoje temos Gluck, e amanhã veremos um menino de 12 anos sentar-se ao cravo e reger sua ópera?

       [...] Mas, para dizer a verdade, a primeira idéia de que o pequeno Wolfgang escrevesse uma ópera veio do próprio Imperador [Joseph II], que por duas vezes perguntou a Wolfgang se ele gostaria de escrever uma ópera e regê-la ele mesmo. Ele respondeu com franqueza que sim, mas na verdade o Imperador não podia dizer mais nada, já que a ópera é responsabilidade de Affligio [...].

 

Leopold Mozart a L. Hagenauer, em Salzburgo

Viena, 14 de setembro de 1768

 

        Quanto à ópera de Wolfgangerl, só posso dizer-lhe sucintamente que todo o inferno da música está revolto e pronto para evitar que o mundo testemunhe a inteligência de uma criança. É-me impossível forçar a apresentação da ópera, sabendo que há uma conspiração, diga-se de uma vez, para produzi-la da maneira mais atroz, e então arruiná-la. Tive de esperar a chegada do Imperador [...]. Creia-me, não negligenciarei nada que seja útil à honra de meu filho. Eu já havia adivinhado. Na verdade, tinha mesmo falado com Sua Excelência Conde von Zeyl, que, porém, acreditava que todos os musici obedeceriam às ordens de Wolfgangerl, pois ele julgou pela aparência e nada sabia da malícia e da maldade dessa corja. Paciência! Chegará a hora em que tudo será esclarecido e Deus permitirá que nada aconteça por acaso.

 

Leopold Mozart a L. Hagenauer, em Salzburgo

Viena, 14 de dezembro de 1768

 

        A Missa de Wolfgang, apresentada em 7 de dezembro com o Padre Parhamer diante da Corte Imperial, e regida pelo próprio Wolfgang, compensou o mal causado pelos nossos inimigos que prejudicaram a ópera, e convenceu tanto a Corte quanto o público (que compareceu em peso) da malícia dos nossos oponentes.


1769

 

Mozart a uma destinatária anônima, em Salzburgo

Salzburgo, 1769

 

Minha cara jovem,

 

         Eu imploro que me perdoe por tomar a liberdade de lhe escrever estas poucas linhas, mas como a senhorita disse ontem, não há nada que não possa entender em latim, e eu posso escrever o que quiser nessa língua, não pude resistir ao ousado impulso de escrever-lhe algumas linhas em latim. Quando a senhora tiver decifrado estas, seja bondosa e mande a resposta por um dos criados de Hagenauer, pois meu mensageiro não pode esperar; lembre-se, a senhorita deve responder por esta carta.

          Cuperem scire, de qua causa, a quam plurimis adolescentibus ottium usque adeo oestimetur, ut ipsi se nec verbis, nec verberibus ad hoc sinant abduci.¹

 

Wolfgang Mozart

 

¹ Em latim: "Gostaria de saber o motivo de o ócio ser tão valorizado pelos jovens, que não o deixarão com palavras ou golpes."

 

Mozart a Anna Maria Mozart, em Salzburgo

Wörgl, 14? de dezembro de 1769

 

Querida Mama,

 

        Meu coração está tão cheio de alegria, porque sinto-me tão contente nessa viagem, porque nossa carruagem é tão quentinha e porque nosso cocheiro é um bravo rapaz que dirige como o vento, sempre que a estrada permite. Meu Papa já deve ter descrito a viagem para Mama, e a razão de eu estar escrevendo é para mostrar que conheço meu dever e com o mais profundo respeito sou seu filho fiel,

 

Wolfgang Mozart

Carissima sorella mia

Siamo arivati a wirgel.


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