Documentos - Cartas


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TRADUÇÃO: CAMILA ARGOLO


1774

 

P.S. de Mozart a Nannerl Mozart, na carta de Leopold Mozart a Anna Maria Mozart, em Salzburgo

Munique, 16 de novembro de 1774

 

        Eu estou com dor de dente.

        joannes chrisostomus Wolfgangus Amadeus sigismundus Mozartus Maria annæ Mozartæ matri et sonori, ad amicisomnibus, præsertinque pulchris virginibus, ac freillibus, gratiosque freillibus.

 

S: P: D:

 

P.S. de Mozart a Nannerl Mozart, na carta de Leopold Mozart a Anna Maria Mozart, em Salzburgo

Munique, 28 de dezembro de 1774

       

        Minha querida irmã,

 

        Por favor não esqueça, antes de sua viagem [para Munique, para a estréia de La finta giardiniera K.196], de cumprir sua promessa, ou seja, fazer uma certa visita. Mande minhas lembranças para aqueles lados, mas da forma mais comovente e terna - a mais terna e, ah! - mas eu não preciso me preocupar com isso, pois eu conheço minha irmã e a natureza amável que lhe é peculiar, e estou convencido de que ela fará tudo para me satisfazer - e por interesse próprio também [...].

 

P.S. de Mozart a Nannerl Mozart, na carta de Leopold Mozart a Anna Maria Mozart, em Salzburgo

Munique, 30 de dezembro de 1774

 

        Mande lembranças minhas, por favor, para Roxalana, e ela está convidada para tomar chá com o Sultão esta noite. Mande meus cumprimentos para Srta. Mitzerl, e diga-lhe que ela não deve duvidar de meu amor, e que ela está em minha lembrança em seu encantador negligèe; eu vi muitas moças bonitas aqui, mas não como ela. Minha irmãzinha não pode esquecer de entregar-lhe as variações do minuette d'exaude de Ecart, e minhas variações sobre o minueto de Fischer. Ontem eu fui à comédia, a peça se chamava Der Mode nach der Haushaltung. Foi muito boa. Meus cumprimentos a todos os bons amigos, não esqueça - adeus! Espero vê-la logo em Munique. Mando-lhe lembranças de Frau von Durst. É verdade que Hagenauer tornou-se professor de escultura em Viena? Herr von Mölk disse isso ao Padre Wasenau em carta, e Wasenauer mostrou-me essa carta. Adieu. Beijo a mão de Mamã, e isso é tudo por hoje. Aqueça-se bem na viagem, eu imploro, senão você vai passar quinze dias dentro de casa suando diante do fogo, e quem vai cuidar de você? Eu não vou morrer de calor. Está começando a trovejar.

 

Seu sempre            

Seu Irmão de Munique,    

1774 30 Anno    

Decembre.


1775

 

Mozart a Anna Maria Mozart, em Salzburgo

Munique, 11 de janeiro de 1775

 

        Nós três estamos bem, graças a Deus. Eu não posso escrever muito porque estou indo agora mesmo para o ensaio. Meu ensaio geral é amanhã, e na sexta-feira 13 minha ópera estreará ¹. Mamã não precisa se preocupar, tudo irá bem. Penaliza-me muito a idéia de que Mamã tenha suspeitas tão rígidas em relação ao Conde Seeau, porque ele é sem dúvida um amigo e cavalheiro cortês, e tem mais savoir-vivre que seus semelhantes em Salzburgo. [...] Herr von Mölk ficou tão estonteado e aturdido ao ouvir a opera seria que nós ficamos bem constrangidos, pois ficou claro para todos que ele nunca tinha visto nada na vida além de Salzburgo e Innsbruck. Addio. Beijo a mão de Mamã.

 

Wolfgang.

 

¹ La finta giardiniera K.196

 

Mozart a Anna Maria Mozart, em Salzburgo

Munique, 14 de janeiro de 1775

 

        Minha ópera, graças a Deus, foi estreada ontem, dia 13, e tudo correu tão bem que não posso descrever o clamor para Mamã. Em primeiro lugar, o teatro estava tão lotado que muitas pessoas foram obrigadas a voltar para casa. Após cada ária havia em terrível clamor com aplausos e gritos de "Viva Mestro". Sua Alteza a Eleitora e a nobre viúva que a acompanhava (elas estavam à minha frente) também me disseram "bravo". O intervalo entre o final da ópera e o ballet foi cheio de aplausos e gritos de "bravo", que por um tempo diminuíam, para depois voltar bem alto, de novo e de novo. Papá e eu nos dirigimos a um certo salão onde o Príncipe-Eleitor e toda a corte passavam, e se beijavam as mãos de Suas Altezas o Eleitor e a Eleitora, e de outras pessoas proeminentes, e todos foram muito gentis. Sua Graça, o Bispo de Chiemsee, mandou logo cedo os parabéns pelo incomparável sucesso de minha ópera. Quanto ao nosso retorno, ele não será imediato, e Mamã não deve desejá-lo, pois Mamã sabe como é bom ter um espaço para respirar ¹. Nós chegaremos em casa cedo o suficiente para [trecho apagado]. Mas uma justa e válida desculpa é a de que minha ópera será repetida na próxima sexta-feira e eu preciso estar presente - senão ninguém irá mais reconhecê-la - pois este é um local esquisito. Beijo a mão de Mamã mil vezes. Lembranças minhas a todos os bons amigos, homens e mulheres. Lembranças minhas a M. Andretter e diga-lhe que eu peço que ele me perdoe por não lhe ter respondido ainda, mas ainda não tive tempo, e vou responder-lhe imediatamente. Adieu! Mil beijos em Bimberl ².

 

¹ Referência a Salzburgo.

² Cachorro de estimação dos Mozart.


1776

 

Mozart a Padre Martini, em Milão

Salzburgo, 4 de setembro de 1776

 

        Muito reverenciado padre e maestro, ¹

 

        A veneração, a estima e o respeito que sinto por sua ilustre pessoa levam-me a aborrecê-lo com esta carta, e também a enviar uma pequena parcela de minha música, e ouso submetê-la ao seu magistral julgamento. Eu escrevi uma ópera buffa [La finta giardiniera K.196] no ano passado, em Munique, Baviera. Poucos dias antes de minha partida para aquela cidade, Sua Alteza Eleitoral desejou ouvir alguma música contrapontística de minha autoria; portanto eu tive de escrever este moteto imediatamente, para haver tempo de copiar as partes para Sua Alteza, e organizá-las para sua apresentação no domingo, na grande missa, durante o ofertório. Querido e estimado Maestro, eu imploro por uma opinião sem reservas sobre este moteto. Nós vivemos neste mundo para sermos úteis, e iluminarmos uns aos outros por meio de discussão, e nos esforçarmos vigorosamente para promover o progresso da ciência e das belas artes. Ah, como eu gostaria de estar mais próximo ao senhor, para que eu pudesse conversar e discutir com Vossa Reverendíssima! Eu vivo num país onde a música tem pouco sucesso, embora, com exceção daqueles que nos abandonaram, possuímos ainda entre nós admiráveis professores, e particularmente compositores de grande profundidade, conhecimento e bom gosto. Nosso teatro está em péssimo estado por falta de atores. Não possuímos musici [castrati] e dificilmente conseguiremos um, pois eles insistem em serem bem pagos, e generosidade não é um dos nossos defeitos. Eu me distraio escrevendo música eclesiástica e música de câmara, e nós temos dois grandes contrapontistas aqui, Haydn e Adlgasser. Meu pai é maestro da Igreja Metropolitana, o que me dá oportunidade de escrever quanta música eclesiástica quiser. Além do mais, meu pai está a serviço desta corte há 36 anos, e sabendo que o atual Arcebispo não suporta gente velha, ele [Leopold Mozart] não põe o coração no trabalho, e se devota à literatura, que sempre foi seu estudo favorito. Nossa Igreja é bastante diferente da italiana, e mais ainda, pois uma missa incluindo o Kyrie, Gloria, Credo, a Sonata da Epístola, o Ofertório ou Moteto, Sanctus e Agnus Dei, e mesmo uma missa solene, oficiada pelo próprio Príncipe, nunca pode durar mais que três quartos de hora. Se faz necessário um estudo particular para esse tipo de composição. E que tipo de Missa é essa, instrumentada inclusive com tímpanos, etc., ah! porque estamos tão longe um do outro, carissimo Signor Maestro? pois eu tinha tantas coisas a dizer! Reverencio com devoção todos os Signori Filarmonici. Ouso recomendar-me à sua importante opinião, nunca cessarei de lamentar a minha distância da pessoa que mais amo, venero e estimo no mundo. Sou, venerável Padre, sempre seu mais humilde e devotado servo,

 

Wolfgang Amadeus Mozart

 

¹ Carta em italiano.


1777

 

Mozart a Leopold Mozart, em Salzburgo

Wasserburg, 23 de setembro de 1777

 

      Mon très cher père,

         

      Graças a Deus! chegamos a Waging, Stain, Ferbertshaim e Wasserburg em segurança. Agora um pequeno relato sobre nossa viagem. Quando chegamos aos portões da cidade, nos fizeram esperar por um bom quarto de hora até que eles pudessem abrir para nós, já que eles estavam em reforma. Encontramos uma manada perto de Schinn, e uma dessas vacas era notável, cada lado era de uma cor, coisa que nunca tínhamos visto. Quando finalmente chegamos a Schinn, encontramos uma carruagem que parou e, ecce, nosso postilhão disse-nos que tínhamos de trocar de carruagem. "Não importa", disse eu. Mamã e eu estávamos negociando, quando um cavalheiro corpulento aproximou-se, e eu reconheci sua fisionomia imediatamente; era um comerciante de Memmingen. Ele me encarou por um tempo tempo, e afinal disse, "O senhor é mesmo Herr Mozart?" "Às suas ordens", disse eu; "Eu também o conhecia de vista, mas não sabia seu nome; eu o vi, há um ano, em Mirabell, num concerto." Quando ele me disse seu nome, dei graças a Deus, pois eu tinha esquecido. Quando vi esse cavalheiro em Salzburgo, ele ia acompanhado por um jovem cujo irmão não estava com ele, e que vive em Memmingen. Seu nome é Herr Unhold, e ele insistira tanto para que eu fosse a Memmingen se possível. Nós mandamos através deles mil lembranças a Papá, e para minha irmã doida, e eles prometeram fazê-lo sem falta. Essa mudança de carruagens foi um grande aborrecimento para mim, pois eu queria mandar uma carta de Wagung pelo cocheiro. Após uma leve refeição, tivemos a honra de sermos levados a Stain pelos supra-ditos cavalos de posta em uma hora e meia. Em Waging eu ficara só com um clérigo por alguns minutos, e ele parecia muito surpreso, pois não sabia nada da nossa história. De Stain fomos levados pelo mais aborrecido e fleumático cocheiro. N. B. - como cocheiro, quero dizer; nós pensamos que jamais chegaríamos à próxima parada. Mas chegamos finalmente, o que se pode verificar pelo fato de eu estar escrevendo esta carta. (Mamã está quase dormindo). De Ferbertshaim a Wasserburg tudo correu bem. Viviamo come i principi; tudo o que nos falta é o senhor, querido Papá. Bem, essa é a vontade de Deus, sem dúvida tudo dará certo. Espero que Papá esteja tão bem quanto eu estou alegre. Não deixou passar nada; eu sou como Papá, e cuido de tudo [...]. Em Stern, em Wasserburg, fomos servidos excelentemente. Eu sou tratado aqui como um príncipe. Há cerca de meia-hora (Mamã estando ocupada), bateram em minha porta para receber minhas ordens a respeito de diversos assuntos, e eu as dei com o mesmo ar grave do meu retrato. Mamã está indo dormir. Nós imploramos que Papá tenha muito cuidado com sua saúde, não se aborreça, mas ria e esteja bem humorado. Nós achamos que Mufti H. C. [Príncipe-Arcebispo Colloredo] é um FRACASSADO, mas sabemos que Deus é piedoso, generoso e amoroso. Beijo as mãos de Papá mil vezes, abraço minha IRMÃ DOIDA tantas vezes quanto tomei pitadas hoje. Parece que deixei meus diplomas em casa [os contratos de Mozart na corte]. Por favor, envie-os em breve. Minha pena é rude, e eu não sou refinado.

 

Mozart a Leopold Mozart, em Salzburgo

Munique, 26 de setembro de 1777

 

        Nós chegamos em segurança a Munique na tarde do dia 24, às quatro e meia. Foi uma grande novidade para ser obrigado a dirigir-me à Alfândega  escoltado por um granadeiro com uma baioneta armada. A primeira pessoa que encontramos, enquanto nos dirigíamos para lá, foi Herr Consoli; ele me reconheceu imediatamente e mostrou-se extremamente alegre em tornar a ver-me. No dia seguinte ele nos visitou. Não vou sequer tentar descrever a alegria de Herr Albert [senhorio da hospedaria Águia Negra]; ele é realmente um homem muito honesto, e é um bom amigo nosso. Assim que cheguei sentei-me ao piano e não o abandonei senão quando chegou a hora de jantar. Herr Albert não estava em casa, mas logo chegou e jantou conosco. Lá eu conheci M. Sfeer e um certo secretário, seu amigo íntimo. Ambos mandam lembranças ao senhor. Apesar de estar cansado da viagem, não fomos dormir senão já muito tarde; porém nos acordamos às sete do dia seguinte. Meu cabelo estava tão bagunçado que só pude visitar o Conde Seeau às dez e meia. Quando cheguei lá soube que ele tinha ido à caça. Paciência! Nesse meio tempo quis visitar o regente de coro Bernard, mas ele partira para o campo com o Barão Schmid. Encontrei Herr von Belvall muito ocupado com seus negócios; ele mandou mil lembranças. Rossi veio jantar, às duas Consoli nos visitou e às três chegou Beecke, e também Herr von Belvall. Visitei Frau von Durst1, que agora mora nos Franciscanos. Às seis passeei um pouco com Herr Beecke. Há um professor Huber aqui, de quem talvez o senhor se lembre melhor que eu; ele disse que a última vez que me vira ou ouvira fora na residência de Herr von Mesmer, der Jüngere. Ele não é alto nem baixo, é pálido, tem cabelo grisalho, e de rosto se parece com Herr Unterbereiter. Este cavalheiro é o vice-supervisor do teatro; seu trabalho é ler todas as comédias que serão apresentadas, melhorá-las ou estragá-las, aprová-las ou descartá-las. Ele visita Albert todas as noites e conversa muito comigo. Hoje, sexta, dia 26, eu visitei o Conde Seeau às 8 e meia. Eis o que ocorreu. Quando eu ia entrando na residência encontrei Mme. Niesser, a atriz, que estava saindo, e disse, "Imagino que o senhor deseja ver o Conde?" "Sim!" "Ele ainda está em seu jardim, e só Deus sabe quando ele volta!" Eu perguntei-lhe onde ficava o jardim. "Já que eu também preciso falar-lhe," disse ela, "iremos juntos." Mal deixávamos a casa quando vimos o Conde caminhando em nossa direção; ele me reconheceu e chamou-me pelo nome imediatamente. Ele foi muito educado, parecia conhecer toda a minha história. Nós subimos a escadaria lentamente e sós; eu lhe contei meu caso brevemente. Ele respondeu que eu deveria imediatamente requerer uma audiência com Sua alteza o Príncipe-Eleitor, mas se eu não conseguisse obtê-la, deveria redigir uma declaração. Eu lhe roguei que mantivesse tudo isso em segredo, e ele concordou. Quando eu observei que havia espaço para um compositor genuíno, ele disse, "Eu bem sei." Após isso visitei o Bispo de Chiemsee, e fiquei lá por meia hora. Eu lhe contei tudo, e ele prometeu fazer por mim tudo o que pudesse. à uma hora ele dirigiu-se a Nymphenburg, e declarou positivamente que falaria com a consorte do Príncipe-Eleitor. Ao domingo o Conde virá aqui. Herr Johann Kronner foi contratado como vice-konzertmeister [...]. Ele escreveu duas sinfonias Deo mene libere.  O Príncipe-Eleitor perguntou-lhe, "O senhor realmente as compôs?" "Sim, Alteza Real!" "Com quem o senhor estudou?" "Com um mestre-escola na Suíça, onde se dá muita importância ao estudo da composição. Ele ensinou-me mais que o que vossos compositores juntos poderiam me ensinar." O Conde Schonborn e sua esposa, uma das irmãs do Arcebispo [Colloredo] passaram pela hospedaria [passed through] hoje. Por acaso eu estava assistindo a peça no momento. Durante a conversa, Herr Albert disse-lhes que eu estava aqui, e que eu tinha me demitido do meu emprego. Eles ficaram espantados e se recusaram terminantemente a acreditar quando Albert lhes informara que meu salário, de saudosa memória, era de apenas 12 florins e 30 kreuzer! Eles apenas trocaram os cavalos, e teriam de bom grado conversado comigo, mas quando eu cheguei já era bastante tarde. Agora devo perguntar o que o senhor tem feito, e como tem passado. Mamã e eu desejamos que o senhor esteja muito bem. Ainda estou de muitíssimo bom humor; minha cabeça está leve como uma pluma desde que deixei aquela cidade de intrigantes. Até já engordei.

 

1 com quem Nannerl se hospedara anteriormente.

 

Mozart a Leopold Mozart, em Salzburgo

Munique, 29-30 de setembro de 1777

 

        É verdade! Nós temos muitos bons amigos que, infelizmente, pouco ou nada podem fazer por nós. Ontem estive com o Conde Seeau às 10 e meia e o achei mais grave e menos natural do que na primeira ocasião. [...] Hoje visitei o Príncipe Zeil, que me disse, com toda a civilidade, "Temo que não conseguiremos muita coisa aqui. Eu falei em particular com o Eleitor enquanto jantávamos em Nymphenburg e ele respondeu que ainda era muito cedo - que você deveria ir para a Itália e fazer seu nome - que ele não lhe negaria nada, mas ainda era muito cedo." Aí está! A maioria desses cavalheiros têm uma mania terrível pela Itália! Ainda assim, ele me aconselhou a ir pessoalmente ao Eleitor e expor meu caso, como de costume. Hoje falei em particular com Herr Wotschicka e ele me escolheu o horário de 9 horas amanhã, quando ele certamente irá conseguir-me uma audiência. Nós somos agora bons amigos. [...] O Bispo de Chiemsee também falou em particular com a Eleitora. Ela deu de ombros e disse que faria o possível, mas que não tinha muita esperança. Agora o Conde Seeau. O Conde Seeau perguntou ao Príncipe Zeil (depois de o último ter-lhe contado tudo): "Diga-me, Mozart recebe o suficiente de casa para permanecer aqui com uma pequena assistência extra? Gostaria de mantê-lo." O Bispo respondeu, "Não sei, eu duvido muito. Ainda assim, o senhor deveria falar com ele a respeito." Essa foi, portanto a razão de eu estar tão pensativo no dia seguinte. Eu gosto de ficar aqui, e na minha opinião ( e na de meus bons amigos), creio que em um ou dois nos eu poderia ganhar reputação com meu trabalho e conseqüentemente estar em posição de ser solicitado, em vez de solicitar, pela Corte. Desde minha chegada, Herr Albert tem um projeto em mente que não me parece de todo impossível de realizar. Ele gostaria de reunir dez bons amigos, cada um disposto a contribuir com a pequena soma de um ducado por mês, o que faria 10 ducados por mês, cinqüenta gulden, seiscentos florins por ano. Além disso conseguiríamos apenas 200 florins por ano do Conde Seeau, o que faria 800 florins. - O que Papá acha dessa idéia? - não seria bom? - Não deveria ser aceito se seriamente proposto? - Eu estou muito contente com a proposta. Mão estaríamos tão longe se o senhor, meu querido Papá, pudesse tomar gosto pela idéia de deixar Salzburgo (como eu gostaria de coração que o senhor pudesse) e viver em Munique, as coisas seriam felizes e calmas. Pois por termos que viver em Salzburgo com 500 florins [por ano], poderíamos viver em Munique com 600 ou 800, não?

        Eu tenho de lhe entregar 100.000 cumprimentos da Condessa La Rosè. Ela é realmente uma dama amável e nossa boa amiga. Herr von Dufresne contou-me recentemente que eles dois brigam constantemente com a Praesidentin em nosso favor. Papá está nas altas graças da Condessa La Rosè. Ela disse que raras vezes tinha conhecido alguém tão sensível! - e que se pode ver no rosto! - eu a visito todos os dias. Seu irmão não está aqui.

       Hoje, dia 30, após falar com M. Wotschicka, fui à Corte às 9 horas. Eu os encontrei todos vestidos para a caça. [...] Eu poderia ter ido lá ontem á noite, mas não poderia ofender Herr Wotschicka, que me tinha prometido pessoalmente uma audiência com o Eleitor. Mais ou manos às 10 horas, ele me levou para uma saleta estreita por onde Sua Alteza tinha de passar em seu caminho para a missa antes da caçada. Conde Seeau passou por mim e cumprimentou-me muito amigavelmente, "Seu servo, meu caro Mozart!". Quando o Eleitor aproximou-se, eu disse, "Sua Alteza me permitirá que eu me jogue aos seus pés e ofereça-lhe muito humildemente meus serviços?" "Você quer deixar Salzburgo de uma vez?" "Sim, de uma vez, Alteza." "Você foi demitido?" "Não, de forma alguma, Excelência, eu meramente pedi permissão para uma viagem, que me foi negada; conseqüentemente fui obrigado a dar este passo. Todavia, eu há muito pensava em partir, pois Salzburgo não é o meu lugar." "Realmente não. Mon Dieu, que rapaz! Mas seu pai ainda está em Salzburgo, não está?" "Sim, Alteza. Ele é seu servo muito humilde, etc. Eu já estive na Itália três vezes, escrevi três óperas, e em um exame na Accademia de Bolonha fiz meu trabalho em uma hora enquanto muitos maestri tiveram de trabalhar e mourejar por 4 ou 5 horas. Isso serve de testemunho de que sou capaz de servir esta Corte. Mas meu único desejo é servir Vossa Alteza, que é..." - "Sim, sim, minha criança, mas não há vagas, sinto muito. Se pelo menos houvesse uma vaga." "Asseguro a Vossa Alteza que eu honraria Munique" "Sim, mas é inútil, não há vagas", disse ele, seguindo adiante, e eu fiz uma respeitosa reverência. Herr Wotschicka aconselhou-me a deixar o Eleitor ver-me com freqüência. Hoje à tarde fui visitar o Conde Salern. A Condessa, sua filha, agora é dama-de-companhia. Ela também foi à caça. Eu e Ravani fomos para a estrada por onde todo o grupo passaria. O Eleitor e a Eleitora me cumprimentaram muito amigavelmente. A Condessa Salern reconheceu-me logo. Ela acenou para mim várias vezes. O Barão Rumling, a quem eu tinha encontrado na antecâmara, nunca foi tão educado comigo como nessa ocasião. Eu contarei o que se passou na residência dos Salern em minha próxima carta - todos muito gentis, corteses e sinceros.

 

P.S. - Ma trés chere soeur, eu logo escreverei uma carta toda para você. Lembranças minhas a A. B. C. M. R. e a outras letras do alfabeto. Por favor, cuide bem de sua saúde. Beijo a mão de Papá 100.000 vezes e permaneço seu

 

Mais obediente filho,                                            

                Wolfgang Amadé Mozart

 

                        Um homem construiu uma casa e escreveu nela - 

                                Construir uma casa é uma alegria, eu acho,

                                Não sei o quanto custou.

                        

                        Durante a noite alguém escreveu embaixo - 

                                Mas que ela custaria um bocado de metal

                                Você deveria saber, seu idiota.

 

Mozart a Leopold Mozart, em Salzburgo

Munique, 2 de outubro de 1777

 

        Ontem, dia 1º, estive novamente na residência do Conde Salern e hoje, dia 2, lá jantei. Eu toquei bastante nesses três dias, e ainda assim, o fiz muito alegremente. Mas que Papá não suponha que eu estava alegre com os Salern por causa de ---------------------. Não, porque infelizmente ela é dama-de-comnpanhia, e conseqüentemente nunca está em casa. Mas amanhã, às dez horas, eu irei à Corte visitá-la em companhia de Madame Hepp, antes Mlle. Tosson. Então, no sábado seguinte, o Conde estará fora, só retornando no dia 20. Amanhã jantarei com Madame e Madlle. de Branca, que é de certa forma uma aluna minha, porque Siegl raramente aparece para as aulas e Beeché [Beecke], seu professor de flauta, está viajando. Por três dias inteiros toquei muitas coisas "inventadas" na residência do Conde Salern, e então, de cor, as duas casazioni para a Condessa, e para terminar, o rondó de memória. O senhor não pode imaginar a alegria do Conde Salern, e ele entende de música, porque ele sempre diz "bravo" quando outros cavalheiros tomam uma pitada de rapé, espirram, limpam o pigarro, ou começam a conversar. Eu lhe disse que quisera que o Eleitor lá estivesse para ouvir, pois ele nada sabe sobre mim, nem o que sou capaz de fazer. É uma pena que esses cavalheiros simplesmente acreditam no que lhes é dito ao invés de investigarem por si próprios. Mas é sempre assim. Estou querendo pôr o assunto à prova. Deixe-o colecionar todos os compositores em Munique e mandar gente para a Itália, França, Alemanha, Inglaterra e Espanha em busca de outros - tenho certeza que posso compor como qualquer um deles. Eu lhe disse [i.e., Salern] das minhas aventuras italianas e implorei-lhe que trouxesse esse assunto à tona se a qualquer tempo meu nome fosse discutido, e ele disse, "Eu tenho pouquíssima influência, mas o que eu puder fazer, farei de todo coração." Além disso, ele acredita que se eu conseguisse ficar aqui por um tempo, o assunto poderia eventualmente resolver-se. Não me seria impossível conseguir isso sozinho, pois eu devo receber 300 florins do Conde Seeau e não preciso me preocupar com o preço das minhas refeições, pois devo der constantemente convidado para jantar fora; e quando não for, Albert ficaria satisfeito em convidar-me. Eu como pouco, bebo água, e termino com um pouco de vinho e fruta. Se meus bons amigos não fizerem objeção, eu assinaria um contrato com o Conde Seeau para escrever quatro óperas alemãs por ano, algumas buffé e outras serie. Eu ganharia uma noite em meu benefício por cada uma delas, como é o costume aqui, e apenas isso me traria pelo menos 500 florins, que com meu salário somariam 800 florins, apesar de que sem dúvida pode vir a ser mais, já que Reiner, ator e cantor, recebe 200 florins em sua noite, e eu sou um grande favorito aqui. E quão mais popular eu me tornaria se eu aumentasse a estima do Teatro Nacional Alemão na esfera da música! Eu certamente o conseguiria, porque só de ouvir o drama musical alemão fiquei logo com muita vontade de escrever. O nome da prima donna é Keiser. Ela é a filha de um cozinheiro de um Conde dessas redondezas, uma moça muito bonita e agradável no palco, mas eu ainda não a vi de perto. Ela nasceu aqui. Quando eu a ouvi, era apenas a sua terceira apresentação em palco. Ela tem uma voz amável, não é forte mas também não é fraca, muito pura e com uma boa intonação. Seu professor de canto é Valesi, e a partir do que pude ouvir dela, percebi que ele entende da arte e de seu ensino. Ocasionalmente, quando ela sustenta uma nota por uns dois compassos, eu pude admirar muito seu crescendo e diminuendo. Seu trinado é lento e me agrada, porque ele será muito mais puro e claro quando ela apressar seu andamento. Além disso é mais fácil fazê-lo rapidamente. As pessoas estão muito satisfeitas com ela - e eu também. Mamã estava na platéia. Ela fora ao Teatro já às quatro e meia para conseguir um lugar. Eu estava no camarote dos Branca. Eu olhei para Mlle. Keiser com meu binóculo, e ela me fez derramar muitas lágrimas. Eu disse várias vezes, "Brava, bravissima!", porque não esquecia que se tratava apenas de sua terceira apresentação. A ópera se chamava A Pescadora [La pescatrice], uma tradução muito boa com música de Picini [Niccolò Piccini]. Eles ainda não têm óperas originais, mas eles gostariam de apresentar uma opera seria alemã em breve - e penso que eles gostariam que eu a escrevesse. Professor Huber, de quem eu já falei, está entre aqueles que o desejam. Agora eu devo ir para a cama, senão não servirei para nada. São dez horas. O Barão Rumling recentemente fez a gentileza de dizer-me, "O palco é o meu prazer; bons atores e atrizes, bons cantores e cantores, e para coroar tudo isso, um compositor como o senhor!" - Claro que são apenas palavras - e falar é fácil. Mas ele nunca falou assim comigo antes.

        Escrevo isso no dia 3.

Eu desejo ao senhor uma boa noite. Amanhã, se Deus quiser, teremos uma nova conversa feita de papel e tinta, meu caro Papá [...].

 

Leopold Mozart a Mozart, em Munique

[Salzburgo], 6 de outubro de 1777

 

        Às vezes sinto-me triste porque não posso ouvi-lo tocar cravo ou violino, e sempre sinto uma melancolia pesando sobre mim, pois sempre que me aproximo de nossa casa, espero ouvir as melodias do seu violino.

 

Mozart a Leopold Mozart, em Salzburgo

[Munique], 6 de outubro de 1777

 

        Mon très cher Père!

 

        Mamã não pode escrever; primeiro porque ela não quer, e segundo porque ela está com dor de cabeça! Conseqüentemente, eu devo contar tudo em detalhes. Estou prestes a ir com o Professor visitar Mlle. Keiser. Ontem houve uma "hora eclesiástica". Houve dança, mas eu dancei apenas quatro minuetos e voltei para meu quarto porque entre 50 mulheres presentes, apenas uma dançava no tempo, e ela era Mlle. Käser, uma irmã do secretário do Conde Perusa, que viveu em Salzburgo. O Professor tem sido muito atencioso para não perder seu compromisso comigo, conseqüentemente eu não fui visitar Mademoiselle Kaiser, não sabendo seu endereço!

        Anteontem, sábado dia 4, quando das solenidades do onomástico de Sua Alteza o Arquiduque Albert, nós tivemos um pequeno concerto. Ele começou às três e meia e terminou mais ou menos às oito horas. M. Dubreill, de quem Papá deve lembrar, estava lá. Ele é aluno de [Giuseppe] Tartini. Pela manhã ele deu a seu filho Carl uma aula de violino e eu por acaso cheguei durante esta.  Eu nuca acreditei muito nele, mas percebi que ele ensina com muita perseverança, e quando aconteceu de falarmos sobre a execução do violino em concertos e em orquestra, ele falou muito razoavelmente, e estava sempre de acordo com minha opinião. Então eu retirei todas as minhas opiniões anteriores e fiquei convencido de que encontraria nele uma excelente companhia e um bom violinista. Eu portanto implorei-lhe que fizesse a gentileza de participar de nosso pequeno concerto à tarde. Nós começamos imediatamente com os dois quintetos de Haydn. Sinto dizer que mal pude ouvi-lo! Ele era incapaz de tocar quatro compassos sem cometer um erro. Ele não conseguia acertar o dedilhado e ignorava completamente as pausas. Ele ao menos foi polido e elogiou os quintetos, senão - bem, eu não lhe disse nada, mas ele ficava repetindo, "Perdão, errei novamente! Isto é bem difícil, mas é belo!". Eu dizia, "Oh, não se preocupe, estamos em família." Eu então toquei os concertos em dó, si bemol e mi bemol e então toquei meu próprio trio. Este foi magnificamente acompanhado! No adagio, fui obrigado a tocar a parte dele por seis compassos. Por último mas não menos importante, eu toquei a última casazione da minha obra em si bemol. Eles todos ficaram de olhos arregalados, eu lhe asseguro! Eu toquei como se fosse o maior violinista da Europa. Às três horas do domingo seguinte nós visitamos um certo Herr von Hamm. Devo parar de escrever agora, senão não poderei deixar a carta nas mãos de Herr von Kleinmayr. O Bispo de Chiemsee partiu hoje para Strasburg [sic]. N. B. Mando em anexo seis duetos à clavicembalo e violino de [Joseph] Schuster para minha irmã. Se eu ficar aqui, escreverei seis no mesmo gusto, pois eles são muito populares aqui. Eu os toquei várias vezes aqui e eles não são ruins. Eu as envio principalmente para que vocês dois tenham algo com que possam se divertir. Addio. Beijo suas mãos 1000 vezes e te imploro, minha querida irmã, que espere um pouco mais com paciência. Sou seu mais obediente filho,

 

        Wolfgang Amadé Mozart                                   

 

Mozart a Leopold Mozart, em Salzburgo

Munique, 11 de outubro de 1777

 

        Por que eu não escrevi nada sobre Misliweczeck [sic]? Porque eu tentava não pensar nele; pois sempre que me falam nele ouço dizer o quanto ele me considera, e que bom amigo meu ele é; mas então passam a piedade e lamentações. Disseram-me como ele está e isso me entristeceu profundamente. Como eu poderia suportar que Misliweczeck, meu grande amigo, estaria na mesma cidade, não - no mesmo canto do mundo, e não vê-lo, não falar com ele? Impossível! então eu resolvi visitá-lo. No dia anterior, eu visitara o diretor do Hospital do Duque para saber se eu poderia ver meu amigo no jardim, como eu achava melhor, mesmo que os médicos me tivessem assegurado de que não havia mais risco de infecção. O diretor concordou com minha proposta, e disse que eu deveria encontrá-lo no jardim entre onze horas e meio-dia, e se ele não estivesse lá, deveria mandar chamá-lo. No dia seguinte, fui com Herr von Hamm, secretário imperial [...], e com Mamã para o Hospital do Duque. Mamã foi para a Igreja do Hospital, e nós para o jardim. Misliweczeck não estava lá, então mandamos chamá-lo. Eu o me deparei com ele e o reconheci logo pela maneira de andar. Devo dizer que ele já me havia mandado lembranças através de Herr Heller, um violoncelista, e implorou por uma visita minha antes que eu deixasse Munique. Quando ele chegou até mim, nós apertamos as mãos cordialmente. "Veja," disse ele, "que infeliz que sou." Estas palavras e sua aparência, de que Papá já deve saber, me emocionaram tanto que eu só pude dizer, com lágrimas nos olhos, "Sinto muito, do fundo do meu coração, querido amigo." Ele viu quão profundamente fui afetado, então respondeu muito alegremente, "O que tem feito? Quando soube que o senhor estava em Munique, mal pude acreditar; como Mozart está aqui há algum tempo e não me fez uma visita?" "Espero que me perdoe, mas eu tinha tantas visitas a fazer, e tenho muitos bons amigos aqui." "Creio que tenha bons amigos, mas nenhum tão verdadeiro quanto eu." Ele perguntou se Papá havia me dito que ele recebera a carta. Eu disse, "Sim, ele escreveu," (eu estava muito confuso, e tremia tanto que mal podia falar) "mas ele não entrou em detalhes." [...] Então ele me disse, "O senhor precisa ir à Itália; lá se é estimado e valorizado." Na verdade, ele tem razão. Quando reflito sobre o assunto, [vejo que] em nenhum outro país recebi tantas honrarias, ou fui tão estimado como na Itália, e nada traz mais fama do que escrever uma ópera italiana, especialmente para Nápoles. Ele disse que me escreveria uma carta para Santoro, que eu copiaria quando o visitasse no dia seguinte; mas como não pude retornar, ele me enviou um esboço hoje. Eu soube que quando falam a Misliweczeck sobre Becke [Beecke] ou outros pianistas, ele diz, invariavelmente, "Não se enganem, ninguém toca como Mozart; na Itália, onde estão os grandes mestres, só se fala de Mozart; quando o mencionam, ninguém se atreve a falar de outro." Agora eu posso escrever para Nápoles quando quiser; só que quanto mais cedo, melhor. Primeiro preciso saber a opinião daquele discretíssimo hofkapellmeister, Herr von Mozart. Desejo ardentemente escrever uma nova ópera. A distância é certamente grande, mas ainda há muito tempo para escrever a ópera [...]. Creio que eu poderia tentar. De qualquer forma, eu receberia 100 ducados no Carnaval; e assim que eu escrever para Nápoles, serei procurado em todos os lugares. Como Papá bem sabe, em Nápoles há opera buffa na primavera, verão e outono, e eu poderia escrever para praticar [...]. É verdade que não se ganha muito com isso, mas é alguma coisa, e seria um melhor meio de ganhar fama e reputação do que dar cem concertos na Alemanha, e eu sempre fico muito mais feliz quando tenho algo para compor, que é meu maior prazer, e se eu conseguir uma posição em algum lugar, ou se tiver esperanças de obtê-la, a scrittura seria uma grande recomendação, e considerariam meu nome com mais cuidado. Só estou tagarelando, mas falo com o coração. Se Papá provar que estou errado, eu desistirei, embora relutantemente. Só de ouvir falar em ópera, ou quando estou no teatro e ouço as vozes, ah! eu fico fora de mim.

        Amanhã, Mamã e eu encontraremos Misliweczeck no jardim do Hospital para nos despedirmos; ele queria que eu levasse Mamã para a Igreja novamente, pois ele disse que gostaria de conhecer a mãe de um grande virtuose. Meu querido Papá, escreva-lhe sempre que tiver tempo, é o maior prazer que ele tem, pois está bastante abandonado. Às vezes ele não vê ninguém em uma semana inteira, e ele me disse: "Eu lhe asseguro que estranho ver tão poucas pessoas; na Itália eu tinha companhia diariamente." Ele está magro, é claro, mas cheio de energia e gênio, e tem a mesma personalidade bondosa e animada de sempre. As pessoas falam muito de seu oratório Abramo ed Isacco, que ele produziu aqui. Ele acabou de completar (com exceção de algumas poucas árias) uma cantata, ou serenata, para a quaresma; e quando ele estava muito pior, escreveu uma ópera para Pádua. Herr Heller acabou de visitá-lo. Quando eu escrevi para ele ontem, enviei a Serenata que escrevi em Salzburgo para o Arquiduque Maximilian [Il rè pastore K.208].

        Mudando de assunto. Ontem, logo após o jantar, fui com Mamã tomar café com as duas Senhoritas von Freysinger. Mamã, porém, não tomou café, mas sim duas garrafas de vinho tirolês. Às três ela foi para casa fazer os preparativos da nossa viagem. Eu, porém, fui com as duas damas para a residência de Herr von Hamm, cujas três filhas tocaram um concerto cada, e eu toquei um de Aichner prima vista, e continuei improvisando. O professor dessas simplórias, as Demoiselles Hamm, é um certo clérigo chamado Schreier. Ele é um bom organista, mas não é um pianista. Ele ficou me encarando com seus óculos. Ele é um tipo reservado e quase não fala; ele me deu um tapinha no ombro, suspirou e disse, "Sim, o senhor é - o senhor sabe - sim - é verdade - o senhor é extraordinário!" Aliás, o senhor lembra do nome Freysinger - o pai das duas belas jovens que mencionei? Ele disse que lhe conhece bem, e que estudou com o senhor. Ele se lembra particularmente de Messenbrunn, onde Papá (dessa eu não sabia) tocou órgão incomparavelmente. Ele disse, "Era impressionante ver a velocidade das mãos e dos pés, era inimitável; um mestre [thorough] realmente, meu pai o adorava; e como ele enganava os padres sobre entrar para a Igreja! O senhor é igualzinho a ele naquela época [...]" Apropos, um certo Hofrath Effeln manda-lhe lembranças; ele é um dos melhores Hofraths daqui, e teria sido nomeado chanceler se não fosse por um defeito - A BEBIDA. Quando o vimos pela primeira vez na residência de Albert, Mamã e eu pensamos, "Que sujeito esquisito!" Imagine só um homem muito alto, espadaúdo e corpulento, e com uma cara ridícula [...]. Ele disse que conhece Papá intimamente.  Agora vou ao Teatro. Na próxima vez escreverei mais, mas não posso continuar hoje, meus dedos estão doendo mais que o normal.

        Munique, 11 de outubro, às doze e um quarto da noite, eu escrevo o seguinte: - Fui à comédia do Drittle, mas só a tempo de ver o ballet, ou melhor, a pantomina, que eu não tinha visto. É chamada "Das von der fur Girigaricanarimanarischaribari verfertigte Ei." Foi muito boa e engraçada. Amanhã vamos a Augsburgo porque o Príncipe Taxis não está em Rastibon, mas sim em Teschingen. Ele está, de fato, em casa de campo  que fica, porém a apenas uma hora de Teschingen. Mando para minha irmã, com esta, quatro prelúdios; ela verá e ouvirá por si própria como as diferentes tonalidades surgem nelas. Meus cumprimentos a todos os bons amigos, especialmente ao jovem Conde Arco, Madlle. Sallerl, e ao melhor dos meus amigos, Herr Bullinger; eu lhe peço que vá à Igreja próximo domingo de música e tenha a bondade de rezar por mim, e minhas lembranças a todos os membros da orquestra, e os exorte ao trabalho, para que eu não seja um dia acusado de ser mentiroso, pois eu tenho exaltado a orquestra em todos os lugares onde passo, e pretendo continuar a fazê-lo.

 

Mozart a Leopold Mozart, em Salzburgo

Augsburgo, 14 de outubro de 1777

 

        Não errei a data, pois escrevo antes do jantar, e creio que na próxima sexta-feira partiremos novamente. Escute só como são generosos os cidadãos de Augsburgo. Em lugar nenhum fui tão cumulado de atenções como aqui. Minha primeira visita foi ao Stadtfleger Longo Tabarro [Burgomestre Langenmantl]. Meu primo, - um homem bom, gentil, honesto e cidadão digno, - foi comigo, e tivemos a honra de esperar no salão por minha entrevista como se fôssemos lacaios até que o todo-poderoso Burgomestre tivesse terminado. Não deixei de, em primeiro lugar, apresentar os respeitosos cumprimentos de Papá. Ele graciosamente dignou-se de lembrar do senhor, e disse, "E como vai ele?" "Muitíssimo bem, graças a Deus!", [e] eu acrescentei imediatamente, "e creio que o senhor da mesma forma esteja bem?" Ele então tornou-se mais cortês, e dirigiu-se a mim na terceira pessoa, então eu lhe chamei "Senhor" - embora na verdade o tivesse feito desde o começo. Ele não pararia de me aborrecer se eu não fosse visitar seu genro (no segundo andar), e meu primo teve a honra de esperar do lado de fora. Eu fui obrigado a me controlar com todas as minhas forças, ou teria dado uma indireta sobre isso. No andar superior tive a honra de tocar por quase três quartos de hora num bom clavicórdio Stein, na presença do filho [stuck-up] e sua esposa afetada e condescendente, e uma velha simplória. Primeiro improvisei e então toquei toda a música que ele tinha, prima vista, e entre elas algumas bem bonitas de Edlmann. Nada poderia ser mais infinitamente polido do que eles todos, e eu também o fui, pois minha regra é me comportar com as pessoas da mesma forma que elas se comportam comigo; creio que esta é a melhor maneira de lidar com as pessoas. Eu mencionei minha intenção de visitar Stein após o jantar, então o jovem ofereceu-se para me levar. Eu agradeci sua bondade e prometi retornar às duas horas. Eu o fiz, e fomos juntos em companhia de seu cunhado, que parece um verdadeiro estudante. Embora eu lhe implorasse que meu nome não fosse mencionado, Herr von Langenmantl foi incauto o suficiente para dizer, com um sorriso afetado, para Herr Stein, "Eu tenho a honra de lhe apresentar um virtuose do piano." Eu imediatamente protestei contra isso, dizendo que era um simples aluno de Herr Siegl de Munique, que me encarregara de enviar-lhe mil lembranças. Stein sacudiu a cabeça com incredulidade, e afinal disse, "Não terei a honra de estar diante de H. Mozart?" "Ah, não," disse eu; "meu nome é Trazom, e tenho uma carta para o senhor." Ele tomou a carta e ia quebrar o lacre imediatamente, mas eu não lhe dei tempo para isso, dizendo, "Para que ler uma carta agora? Por favor, abra a porta do seu salão, pois mal posso esperar para ver seus pianofortes." "Com todo prazer," disse ele, "como o senhor mandar; mas estou certo de que não estou enganado." Ele abriu a porta, e eu dirigi-me imediatamente para um dos três pianos que estavam na sala. Eu comecei a tocar, e ele mal teve tempo de olhar a carta, tão ansioso estava de conhecer a verdade; ele só pôde ver a assinatura. "Oh!," exclamou ele, abraçando-me, persignando-se e fazendo toda espécie de caretas, maravilhado. Eu escreverei sobre seus pianos num outro dia. Ele levou-me a um café, mas quando entramos tive vontade de fugir, pois havia um tal mau cheiro de fumaça de cigarro, e ainda assim tive que tolerar isso por uma boa meia hora. Eu me submeti a tudo com aparente boa vontade, apesar de poder imaginar que estava na Turquia. Ele falou infinitamente sobre um certo Graf, um compositor (de concertos para flauta apenas); e disse que ele era extraordinário, e todos os exageros possíveis. Mal pude controlar o nervosismo. Esse Graf é irmão daqueles dois que estão em Harz e Zurique. Ele não quis dizer-me sua intenção e levou-me para visitá-lo - realmente um digno cavalheiro; ele usava um roupão que não ficaria mal usar na rua. Todas as suas palavras são pausadas, e ele tem o hábito de abrir a boca antes de saber o que falar; portanto ele a fecha com freqüência sem ter dito nada. Após uma imensa cerimônia, ele tocou um concerto para duas flautas; eu toquei o primeiro violino. O concerto é confuso, artificial, com  modulações muito abruptas, e despojado de qualquer gênio. Quando acabou eu elogiei bastante, pois na verdade, ele merece. O pobre coitado deve ter estudado e trabalhado à exaustão para escrevê-lo. Afinal eles trouxeram um clavicórdio Stein da outra sala, um muito bom, mas coberto de poeira. Herr Graf, que é o diretor aqui, ficou de pé, parado, como se, achando que até então suas modulações fossem inteligentes, descobrisse agora que outros eram ainda mais inteligentes, e sem irritar o ouvido do próximo. Em resumo, ele parecia perdido de estupefação.

 

Leopold Mozart a Mozart, em Augsburgo

Salzburgo, 15 de outubro de 1777

 

        Você permaneceu tempo demais em Munique. Você deve dar um ou dois concertos em Augsburgo e ganhar algum dinheiro, seja muito ou pouco. Belas palavras, elogios e bravissimi não pagam nem carteiro nem aluguel, e quando não há nada a ser feito, deve-se partir imediatamente.

 

Mozart a Leopold Mozart, em Salzburgo

[Augsburgo, 17 de outubro de 1777]

 

      [...] Hoje, dia 17, nós jantamos com Herr Gasser, um viúvo jovem e bem apessoado de uma jovem e bela esposa. Eles foram casados por apenas dois anos. Ele é um rapaz extremamente afável e cortês. Nós fomos entretidos esplendidamente. Um colega do Abade Henry, de Bullinger e de Wishofer, um ex-jesuíta, hoje kappellmeister da Catedral daqui, também estava no jantar. Este último conhece bem Herr Schachtner e foi seu regente de coro. Seu nome é Padre Gerbl. Ele pediu-me para transmitir seus cumprimentos a Herr Schachtner. Após o jantar, Herr Gasser, uma cunhada sua, Mamã, nossa priminha [Maria Anna Thekla Mozart, "Bäsle"] e eu fomos visitar Herr Stein. Às quatro horas fomos acompanhados pelo Herr Kapellmeister e por Herr Schmittbauer, organista de S. Ulrich, um velho excelente e cortês. Eu toquei a sonata de Beeché [Beecke] à primeira vista, bastante difícil, miserabile al solito. A estupefação do Kapellmeister e do organista foi indescritível. Tanto aqui como em Munique eu toquei com freqüência minhas seis sonatas de cor. Eu toquei a quinta em sol em um concerto do Círculo dos Camponeses [i.e. Círculo dos Patrícios]. A última, em ré, soa excelentemente no pianoforte de Stein. Ele melhorou também seu sistema de pressão [de pedais] pelo joelho. Posso acioná-lo com um mínimo de pressão, e quando se afrouxa a pressão não há nem sombra de eco. Bom, talvez amanhã eu irei ver seu órgão – para escrever sobre ele, quero dizer. Deixarei sua pequena filha por último! Quando eu disse a Herr Stein que eu gostaria de experimentar o seu órgão, ele ficou muito surpreso e disse: “Quê? Um homem como o senhor, tão grande pianista, poderá querer tocar um instrumento desprovido de douceur, de expressão, de piano e forte, um instrumento que é sempre o mesmo?” - “Oh, nada disso. O órgão ainda é, a meu ver, o rei dos instrumentos.” - “Bem, como quiser.” - e então partimos juntos. Eu pude perceber na sua maneira de falar que ele achava que eu não faria grande coisa com o órgão – que eu iria, par exemple, tocá-lo como tocaria o clavier. Ele me disse que tinha levado Chobert [C. F. D. Schubart] a seu próprio pedido, para experimentar o órgão e “Eu fiquei ansioso”, disse ele, “pois Chobert tinha avisado todo o mundo e a igreja estava bastante cheia; pois eu sabia que esse rapaz é todo espírito, fogo e rapidez, o que é inadequado para o órgão. Porém assim que ele começou, eu mudei de idéia.” Minha única resposta foi, “o que o senhor acha, Herr Stein, que eu vou dedilhar o órgão de um extremo a outro?” - “Ah, o senhor – é outra estória.” Nós chegamos ao coro. Eu comecei a preludiar; ele sorriu; então comecei a fuga. “Agora acredito” ele disse, “que o senhor gosta de tocar órgão. Quando alguém toca assim! -” No começo eu achei o pedal um pouco estranho porque ele não era dividido. Ele começava pelo dó, depois ré e mi em séries. No nosso o ré e o mi estão acima, no dele, mi bemol e fá sustenido. Porém, eu me acostumei logo. Eu também experimentei o velho órgão da S. Ulrich. As escadas são terríveis. Pedi a alguém para tocar enquanto eu desci para ouvir, pois de cima não se sente o efeito do órgão. Não obtive nada, porém, pois o jovem regens chori, um padre, dedilhou o orgao de maneira completamente ininteligível. Quando ele tocava harmonias, só produzia dissonâncias, pois ele estava desafinado. Depois fomos convidados para a sala de recepções pois Mamã, minha prima e Herr Stein também estavam lá. Um certo Padre Emilian, um idiota pomposo, um burro que pretende ser um gênio da sua profissão, foi muitíssimo agradável. Ele tentou constantemente tirar sarro da minha prima, mas foi ela quem tirou sarro dele. Após um tempo, quando ele ficou meio bêbado (o que não demorou muito), ele começou a falar de música. Ele cantou um cânone e eu disse que nunca tinha ouvido algo de tao belo em toda a minha vida. Eu disse, “Pena que eu não possa cantar com o senhor pois sou desafinado de nascença.” “Não importa,” ele disse, e começou a cantar. Eu fiz a terça. Mas pus um texto completamente diferente: “Padre Emilian, oh seu pateta, leck Du mich im Arsch” sotto voce no ouvido da minha prima! Passamos uma meia hora rindo, e ele me disse, “Se somente nós tivéssemos mais tempo juntos, eu teria gostado de discutir a arte da composição com o senhor.” “Não passaríamos muito tempo a discutir”, eu disse. Schmecks Kropfeter.

A continuação na próxima.
                                                     


                                                                  W. A. Mozart




Mozart a Leopold Mozart, em Salzburgo
[Augsburgo, 23-25 de outubro de 1777]

Mon trés cher Pére!

      Ontem, quarta-feira dia 22, foi o dia do meu concerto. O Conde Wolfegg foi muito atencioso e trouxe consigo várias cônegas. Durante meus primeiros dias aqui eu fui visitá-lo em sua residência, mas ele nunca estava. Alguns dias atrás, porém, ele retornou, e ouvindo dizer que eu estava aqui, ele não esperou que viesse visitá-lo, mas veio em pessoa bater à minha porta, justamente no momento em que eu estava pondo o chapéu e a espada para ir visitá-lo. Agora devo descrever as ocorrências desses últimos dias antes de falar do meu Concert. Neste último sábado eu visitei S. Ulrich, como informei em minha última carta. Poucos dias antes, o meu tio [Franz Alois Mozart] me fez visitar o Abade da Santa Cruz, um velho gentil e honrado. No sábado antes de eu visitar S. Ulrich, eu visitei novamente o mosteiro da Santa Cruz com minha prima, porque na primeira ocasião o senhor decano e o procurador não estavam presentes, e minha prima me contara que o Procurador era um sujeito alegre.

[P.S. de Anna Maria Mozart]
       Hoje dia 23, Wolfgang almoçou novamente à Santa Cruz. Eu também fui convidada, mas como tive dor de barriga por causa do frio, fiquei em casa. Em Salzburgo está fazendo tão frio quanto aqui, onde tudo está gelado como em pleno inverno? Depois de amanhã, sábado, temos a intenção de partir para Wallerstein (se nada de opõe). O concerto obteve um sucesso incomparável, você saberá mais detalhes pelo jornal. Herr Stein se desdobrou de trabalho e foi muito amável conosco. Você pode escrever-lhe para agradecer. Espero que você e Nannerl estejam bem, estou um pouco inquieta por não ter recebido carta essa semana, espero que não lhes tenha acontecido nada. Escreva-me rapidamente para que eu não continue preocupada. Estou muito surpresa que você ainda não tenha recebido os duetos de Schuster -

[P.S. de Mozart]
     - mas ele os recebeu – Mamã: mas vejamos, ele escreve que ainda não os recebeu – Wolf: eu odeio discussões, ele os recebeu com certeza, basta. - Mamã: você está enganado. - Wolf: não, não estou enganado, vou dar a prova por escrito a Mamã. Mamã: pois sim, onde? Wolf: aqui, Mamã, leia. Ela está lendo. - Domingo passado, eu fui à missa à Santa Cruz. Depois, às 10 horas, fui visitar Herr Stein. Foi no dia 19, nós ensaiamos algumas sinfonias para o concerto, depois eu almocei na Santa Cruz com o meu tio. Durante a refeição, houve Musique. Mesmo se eles tocam mal, eu prefiro a Musique do claustro à l'orchestre de Augsburgo. Eu toquei uma sinfonia, e, ao violino, o concerto em si bemol de Vanhall, com applauso geral. O senhor decano é um homem muito alegre, primo de Eberlin. Ele se chama Zöschinger e conhece bem Papá. À noite, ao soupée eu toquei o Concerto de Strasbourg [Concerto para violino e orquestra em sol maior K.216?]. Ele funcionou sem problemas. Todo o mundo elogiou o som, belo e puro. Em seguida, trouxeram um clavicórdio. Eu preludiei e toquei uma sonata e as variações de Fischer. Depois, alguns cochicharam ao ouvido do decano que era sobretudo no estilo organístico que ele deveria me ouvir. Eu lhe pedi para me dar um tema, o que ele recusou, mas um outro religioso me deu um. Eu o desenvolvi, e bem na metade da fuga (que era em sol menor), eu comecei a tocar em modo maior um tema bem divertido, mas no mesmo tempo, depois retomei o tema ao contrário; em seguida tive a idéia de tratar o motivo divertido como tema de fuga! - Não hesitei muito tempo e o fiz logo, o que funcionou tão bem como se Doser [um alfaiate de Salzburgo] o tivesse talhado sob medida. O decano ficou boquiaberto.

     Ontem, quarta-feira dia 24, dei meu concerto. O Conde Wolfeck foi muito atencioso [...]. Durante meus primeiros dias aqui eu fui visitá-lo em sua residência, mas ele não estava aqui. Alguns dias atrás, porém, ele retornou, e ouvindo dizer que eu estava aqui, ele não esperou que fosse visitá-lo, mas apareceu em pessoa à minha porta, juntamente no momento em que eu punha o chapéu e a espada para visitá-lo. Agora devo descrever as ocorrências desses últimos dias antes do meu concerto. Neste último sábado eu estava em S. Ulrich, como informei em minha última carta. Poucos dias antes minha prima levou-me para visitar o Abade da Santa Cruz, um velho gentil e honrado. No sábado antes de eu visitar S. Ulrich, eu novamente visitei o mosteiro da Santa Cruz com minha senhora prima, porque na primeira ocasião o Procurador não estava presente, e minha prima me contara que o Procurador era um sujeito alegre.

      “É isso, basta,” disse ele, “mal posso acreditar no que ouvi, você é um baita tipo. Meu prelado me tinha dito, é verdade, que ele nunca tinha em sua vida ouvido tocar tão seriamente e precisamente o órgão” - pois este me tinha ouvido tocar vários dias antes, mas o decano não estava lá. Finalmente, alguém trouxe uma sonata em estilo fugado. Eu devia tocá-la. Mas eu disse: “Senhores, já basta; devo confessar que serei incapaz de tocar esta sonata à primeira vista.” “Sim, é verdade,” disse o decano, “ninguém está em medida de de fazê-lo”. “Porém,” disse eu, “vou de qualquer forma tentar.” E eu ouvia sempre o decano que dizia atrás de mim: oh, o espertinho, oh patife, oh, oh! Eu toquei até às onze. Eles me bombardearam de temas de fugas, eles praticamente me sequestraram. Recentemente, na casa de Stein, ele me mostrou uma sonata de Beecke – acho que já escrevi sobre isso. Appropos, falemos da sua filha [Nannette Stein]. Qualquer um que a vê ou ouve tocar sem rir deve ser de pedra, como seu pai [jogo de palavras com Stein = pedra]. Ela se senta em frente às oitavas agudas do clavier, ela evita sobretudo o centro afim de ter mais ocasiões de se agitar e fazer caretas. Ela revira os olhos, ela sorri. Quando uma passagem reaparece, ela toca essa segunda passagem mais lentamente. Se ela aparece uma terceira vez, ela a toca ainda mais lentamente. Ela ergue o braço bem alto quando ela executa uma Passage. Quando a Passage deve ser marcada, ela o faz com o braço, e não com os dedos, e se aplica a fazê-lo pesada e desastradamente. O mais bonito é, quando durante uma Passage (que deveria escorrer como óleo), é preciso trocar de dedo. Ela nem presta atenção, ela solta a nota, levanta a mão e recomeça, muito comodamente. Dessa maneira há mais chances de se enganar de nota, o que faz um curioso Effect. Só escrevo isso para dar a Papá uma idéia do modo de tocar e ensinar o piano, coisa que é sempre útil. Herr Stein é completamente louco por sua filha. Ela tem oito anos e meio e aprende tudo de cor. Ela poderá ter um futuro, ela tem talento. Mas se ela continuar assim ela não será nada, pois ela não obterá jamais agilidade ao deixar a mão pesada dessa maneira. Ela nunca aprenderá o principal, o mais importante e o mais difícil da Musique: o tempo, pois lhe ensinaram desde a mais tenra infância a não tocar no ritmo. Falei com Herr Stein umas duas horas sobre o problema e ele ficou meio convencido. Ele me pede conselho sobre tudo. Para começar, ele estava enamorado de Beecke. Agora ele vê e ouve que eu toco melhor que Beecke , que eu não faço caretas, o que não me impede de tocar de maneira expressive. Ninguém – segundo ele – jamais tocou tão bem seus Pianoforte. O fato de eu tocar sempre no ritmo os espanta a todos. Eles não conseguem compreender que no Tempo rubato d'un Adagio, a mão esquerda não muda em nada. No caso deles, a mão esquerda cede sempre. O Conde Wolfegg e os outros que estavam apaixonados por Beecke disseram abertamente que eu o destrono completamente. O Conde Wolfegg ia e vinha no salão, repetindo: nunca na vida eu ouvi algo semelhante. Ele me disse: “devo confessar que eu nunca tinha ouvido alguém tocar como eu ouvi hoje. Eu o direi a seu pai assim que eu for a Salzburgo.” O que Papá acha que tocamos após a Sinfonia? - O Concerto pour 3 Claviers. Herr Demmler tocou o primeiro, eu o segundo, e Herr Stein o terceiro. Depois eu toquei sozinho a última sonata, em ré maior, aquela de Dürnitz, e em seguida o meu Concerto en si bémol majeur. Enfim, novamente só, uma fuga em ut maior – com um rondó final. Foi um estrondo! Herr Stein fazia umas caretas maravilhado, Herr Demmler não parava de rir. É um homem curioso: desde que alguma coisa o agrada muito, ele se mete a rir de maneira assustadora. Por minha causa, ele começou até a xingar. Addio. Beijo as mãos de Papá, abraço minha irmã do fundo do coração e sou seu filho obediente.



                                                Wolfgang Amadé Mozart 

 

 

Mozart a Leopold Mozart, em Salzburgo

Augsburgo, 25 de outubro de 1777

 

      A  receita do meu concerto foi de 90 florins, sem subtrair as despesas. Incluindo, portanto, os dois ducados que recebi por meu concerto no Cassino, nós tínhamos 100 florins. As despesas do meu concerto não excederam 16 florins e 36 kreuzer; o uso da sala foi gratuito. Creio que a maioria dos músicos não cobrará nada. No momento nós perdemos ao todo cerca de 26 ou 27 florins. Isso não é muito. Estou escrevendo essa carta no sábado dia 25. Hoje pela manhã cedo recebi a triste notícia da morte de Frau Oberbereiterin; [...] Quanto à filha do padeiro, não tenho objeção a fazer; eu já havia previsto isso há muito tempo. Esta era a causa da minha relutância em partir, e de achar muito difícil fazê-lo. Espero que o assunto não tenha se espalhado por toda Salzburgo. Eu he imploro, querido Papá, que mantenha o assunto em segredo na medida do possível, e enquanto isso pagar seu pai em meu nome quaisquer despesas que ele tenha tido com a entrada da filha no convento - eu pagarei de boa vontade assim que chegar a Salzburgo.

        Eu lhe agradeço sinceramente, querido Papá, por suas felicitações por meu onomástico. Não se preocupe comigo, pois eu sempre tenho Deus diante dos meus olhos, reconheço Sua onipotência e temo Sua ira; mas também conheço Seu amor, Sua compaixão e Sua piedade por todas as Suas criaturas, e que Ele nunca abandonará Seus servos. Quando Sua vontade é feita, eu fico resignado; então nunca deixo de estar feliz e contente. Eu também lutarei para viver estritamente de acordo com suas ordens e conselhos. Agradeça a Herr Bullinger mil vezes por suas felicitações. Desejo escrever-lhe em breve e agradecer-lhe pessoalmente, mas enquanto isso posso assegurar que nunca conheci um amigo tão bom, sincero e verdadeiro como ele. Também peço que agradeça humildemente a Mlle. Sallerl; por favor diga-lhe que pretendo enviar-lhe alguns versos em minha carta da Bullinger. Agradeça a minha irmã também [...].

        Em sua primeira carta, querido Papá, o senhor diz que eu me rebaixei em minha conduta para com o rapaz Langenmantl. Nada disso!  Eu fui apenas direto, nada mais. Vejo que o senhor ainda o considera um menino; ele tem vinte e um ou vinte e dois anos, e é casado. Pode-se considerar alguém um menino quando este é casado? Nunca mais me aproximei dele desde então. Deixei dois cartões em sua casa hoje; e desculpei-me por não entrar, tendo tantas visitas indispensáveis a fazer. Agora devo concluir, pois Mamã insiste absolutement em jantar, e então fazer as malas. Amanhã iremos diretamente a Wallerstein. Minha querida priminha, que lhe manda lembranças, não é nada modesta. Ela ontem vestiu-se à la française, só para me agradar. Ela ficou 5% mais bela por causa disso. Agora, addio!

 

Mozart a Leopold Mozart, em Salzburgo, em carta de Anna Maria a Leopold Mozart

Mannheim, 30 de outubro de 1777

 

      Também lhe imploro que aceite a carta desta insignificante pessoa. Hoje fui com Herr Danner à residência de M. Cannabich. Ele foi extraordinariamente polido, e tocamos algo para ele em seu piano, que é muito bom. Nós fomos juntos ao ensaio. Eu mal podia deixar de rir quando era apresentado aos músicos, pois, apesar de os que me conheciam de nome serem muito educados e corteses, os outros, que não sabiam nada sobre mim, olhavam-me de maneira tão cômica, evidentemente pensando que, por eu ser pequeno e jovem, não há nada de grande ou maduro em mim; eles serão desenganados em breve. O próprio Herr Cannabich me levará para visitar o Conde Savioli, o supervisor da área de música. A boa notícia é que o onomástico do Eleitor está próximo. O oratório que eles estão ensaiando é de Handel [Messiah], mas eu não fiquei para ouvir, pois eles primeiramente ensaiaram um Psalm-Magnificat do vice-kapellmeister daqui, [Abade] Vogler, que durou uma hora. Agora devo concluir, pois ainda tenho que escrever para minha prima.

 

Mozart a Leopold Mozart, em Salzburgo

Mannheim, 4 de novembro de 1777

 

      Eu tenho visitado Cannabich todos os dias, e Mamã foi comigo hoje. 

 

Mozart a Leopold Mozart, em Salzburgo

Mannheim, 8 de novembro de 1777

 

      Nesta manhã, na residência de Herr Cannabich, escrevi o rondó da sonata para sua filha1; por isso, eles não me deixaram sair o dia inteiro. O Eleitor e a Eleitora, e com eles toda a corte, estão muito satisfeitos comigo. Nas duas vezes em que toquei nos concertos, ambos estavam bastante próximos a mim. Quando o concerto terminou, Cannabich conseguiu fazer com que eu fosse notado pela Corte. Eu beijei a mão do Eleitor, que disse, "Creio que há quinze anos o senhor não vinha aqui?" "Sim, Alteza, há quinze anos que não tinha essa honra." "O senhor toca incomparavelmente." Quando beijei a mão da Princesa, ela disse, "Monsieur, je vous assure, on ne peut pas jouer mieux."

      Ontem fui com Cannabich fazer a visita sobre a qual Mamã lhe escrevera [aos filhos do Eleitor Paladino Karl Theodor], e lá conversei com o Eleitor como se ele fosse um bom amigo. Ele é um príncipe muito bom e cortês. Ele me disse, "Soube que o senhor escreveu uma ópera para Munique2." "Sim, Alteza, e com vossa permissão, meu maior desejo é escrever uma ópera aqui; imploro-lhe que não me esqueça. Eu também poderia escrevê-la em alemão, se Deus quiser!", disse eu, sorrindo. "Isso se arranja facilmente." Ele tem um filho e três filhas, sendo que o mais velhos e o jovem Conde tocam piano. O Eleitor consultou-me em particular sobre seus filhos. Eu falei muito honestamente, mas sem depreciar seu professor. Cannabich concorda inteiramente comigo. O Eleitor, ao partir, despediu-se de mim com muita cortesia.

      Hoje após o jantar fui com Cannabich visitar Wendling, o flautista, e lá eles foram muito polidos. A filha, que já foi amante do Eleitor, toca piano muito bem; depois eu toquei. Não posso descrever o quanto eu estava de bom humor. Eu improvisei, depois toquei dois duetos com violino, que aliás eu nunca havia visto em tida a minha vida, e nem sei o nome do compositor. Eles estavam tão maravilhados que eu tive de ser abraçado por todas as damas. Não foi tão mau no caso da filha, pois ela é bem bonita. Então fomos novamente visitar os filhos do Eleitor; eu toquei três vezes, e de boa vontade - o próprio Eleitor me pedia que tocasse novamente. Ele se sentou próximo a mim todas as vezes e nem se mexia. E um certo professor deu-me um tema de fuga, e eu improvisei sobre ele.

      Agora, meus parabéns!

      Meu querido Papá, - não posso escrever poeticamente, pois não sou poeta; não posso fazer belas frases artísticas que projetem luz e sombra, pois não sou pintor; também não posso expressar meus sentimentos e pensamentos por meio de gestos e pantomina, pois não sou dançarino; mas posso fazê-lo em música, pois sou músico. Então amanhã, em casa de Cannabich, tocarei em homenagem a seu onomástico e aniversário. Mon très cher père, hoje apenas posso lhe desejar o que lhe desejo do fundo do coração todos os dias e todas as noites - saúde, vida longa e alegria. Eu também desejo que o senhor fique tranqüilo como se eu estivesse em Salzburgo; pois eu devo admitir que sou a principal causa de tudo isso. Eles me tratavam mal, coisa que eu não merecia, e o senhor naturalmente tomou o meu partido, unicamente por seu amor por mim. Posso dizer que essa foi a melhor e mais urgente razão para deixar Salzburgo com tanta pressa. Desejo portanto que esse meu desejo se realize. Agora devo concluir com uma parabenização musical. Desejo que o senhor viva tanto tempo, até que não exista música nenhuma a ser escrita no mundo. Adeus! Eu desejo sinceramente que o senhor ame-me um pouco, e enquanto isso perdoe-me por esses pobres parabéns até que eu possa abrir novamente essa minha caixinha pensante, onde poderei guardar todo o bom senso que pretendo adquirir.

 

1 Rosina Cannabich

2 La finta giardiniera K.196

 

Mozart a Leopold Mozart, em Salzburgo

Mannheim, 14 de dezembro de 1777

 

      Eu só posso escrever algumas poucas palavras, pois cheguei em casa já às quatro horas, quando devo dar aula de piano à jovem da casa. Agora são quase cinco e meia, justamente a hora de fechar a carta. Pedirei à Mamã para escrever com alguns dias de antecedência, para que nossas notícias não sejam todas da mesma data, pois não é fácil para mim escrever. O pouco tempo que possuo para fazê-lo deve ser devotado à composição, pois tenho muito trabalho à frente. Peço-lhe que escreva em breve sobre minha viagem a Paris. Eu toquei meu Concertone para Herr Wendling, e ele disse que era perfeito para Paris; se o tocássemos para o Barão Bach, ele ficaria em êxtase. Adieu!

 

P.S. de Mozart a Leopold Mozart, na carta de Anna Maria Mozart a Leopold Mozart, em Salzburgo

Mannheim, 18 de dezembro de 1777

 

      Estou com muitíssima pressa! O órgão que testei hoje na Igreja Luterana é muito bom, não só em alguns registros, mas em toda a sua extensão. Vogler tocou também. Ele é só um impostor, por assim dizer; no momento em que ele deseja tocar em estilo majestoso, ele se torna aborrecido. Felizmente ele também fica entediado, então isso não dura muito; mas o que vem a seguir? uma confusão ininteligível. Eu o ouvi à distância. Ele iniciou uma fuga, com acordes de seis notas, e presto. Eu me aproximei dele, pois preferia infinitamente vê-lo a ouvi-lo. Muitas pessoas estavam presentes, entre elas, os músicos Holzbauer, Cannabich e Toeschi.

       Em breve terminarei um quarteto para o holandês "indiano", aquele verdadeiro benfeitor [...]. Addio! Recentemente tive que dirigir a ópera1 com alguns violinos na residência de Wendling, pois Schweitzer estava adoentado.

 

1 Ou seja, um ensaio de ópera.

 

Leopold Mozart a Anna Maria e Mozart, em Mannheim

Salzburgo, 15 de dezembro de 1777

 

          [...] Será preciso perguntar se Wolfgang tem relaxado com a confissão? Deus deve estar em primeiro lugar! De suas mãos recebemos a felicidade terrena; e ao mesmo tempo devemos pensar em nossa salvação eterna. Os jovens não gostam de ouvir falar nessas coisas, bem sei, pois eu mesmo já fui jovem um dia. Mas, graças a Deus, após minhas travessuras tolas e juvenis, eu sempre pude me recuperar. Evitei todos os perigos para minha alma e sempre pus Deus, minha honra e as conseqüências, as extremamente perigosas conseqüências. diante de meus olhos [...].

 

Mozart a Leopold Mozart, em Salzburgo

Mannheim, 20 de dezembro de 1777

 

          Eu lhe desejo, querido Papá, um feliz ano-novo, e que sua saúde, tão preciosa para mim, melhore a cada dia, para o bem e felicidade de seus filhos e sua esposa, a felicidade de seus verdadeiros amigos, e para o aborrecimento de seus inimigos. Também desejo que neste ano que se aproxima o senhor me ame com o mesmo amor paterno que tem até hoje me demonstrado. De minha parte lutarei, e lutarei honestamente, para merecer ainda mais o amor de um pai tão admirável. Fiquei muito feliz com sua última carta de 15 de dezembro, pois, graças a Deus! através dela pude presumir que o senhor está realmente bem. A minha saúde nunca irá acabar se um trabalho constante puder preservá-la. Estou escrevendo às 11 horas da noite, pois não tenho outra hora livre. Não podemos levantar antes das oito, pois em nossos aposentos (no térreo) não entra luz senão às oito e meia. Eu então visto-me rapidamente; às dez horas sento para compor até às 12 ou 12:30h, que é quando vou aos Wendling, onde costumo ficar até a uma e meia; então nós almoçamos. Às três horas vou ao Mainzer Hof (um hotel) para dar aulas de galanterie e baixo contínuo a um holandês e recebo, se não me engano, quatro ducados por doze aulas. Às quatro volto para casa onde dou aula à filha do senhorio1. Nós só começamos às quatro e meia, pois temos que esperar pela luz. Às seis visito Cannabich para dar aula a Mlle. Rose. Eu fico para jantar , então conversamos e ocasionalmente tocamos alguma coisa; eu invariavelmente tiro um livro do bolso e começo a ler, como costumava fazer em Salzburgo. Já escrevi sobre o prazer que sua carta me causou, o que é verdade; apenas uma coisa me aborreceu, sua pergunta sobre se eu porventura me havia desleixado da confissão. Não direi mais nada sobre esse assunto. Apenas me permita fazer um pedido, o de não pensar mal de mim. Eu gosto de estar alegre, mas asseguro-lhe que posso ser tão sério quanto qualquer um. Desde que deixei Salzburgo (e mesmo quando estava em Salzburgo), conheci pessoas que falavam e agiam de tal maneira que eu me envergonharia se fizesse o mesmo, apesar de eles serem vinte, trinta anos mais velhos que eu. Eu portanto lhe imploro uma vez mais com muito fervor, tenha uma melhor opinião de mim.

 

1. Therese Pierron.


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