Anedoctes sur Mozart, Suard (1804)


TRADUÇÃO: CAMILA ARGOLO


ANEDOCTES SUR MOZART, DE JEAN-BAPTISTE-ANTOINE SUARD (Paris, 1804)

 

Mozart foi uma dessas extraordinárias crianças que surpreendia a todos com seu talento prematuro; mas, muito diferentemente de todos esses pequenos prodígios que, chegando à idade adulta, tornaram-se homens comuns, o seu talento cresceu com sua idade e ele se tornou um homem de gênio.

Sendo filho de músico, ele foi educado para essa mesma profissão. A natureza o moldou para a música. Seu instinto o deixou acima de qualquer ensinamento que lhe era dado. A velocidade o seu progresso impressionou a todos que foram testemunhas. Seu pai o levou em uma viagem pela Europa, há cerca de 30 ou 35 anos atrás. Ele tinha 6 ou 7 anos. Eu o ouvi tocar cravo no Concert Spirituel e em algumas residências. Ele espantava a todos os apreciadores pela facilidade e precisão com que  executava as peças mais difíceis. Ele era capaz de tocar uma partitura de orquestra ao cravo à primeira vista. Ele podia improvisar no seu instrumento, e nesses capricci improvisados ele mostrava as mais divinas melodias com uma profunda sensibilidade pela harmonia. Na Itália e na Inglaterra ele causou a mesma admiração.

Ele realizou todas as esperanças que haviam sido depositadas em seu talento. Aos 10 ou 11 anos ele publicou algumas peças para cravo que eram tocadas em qualquer lugar. Ele continuou a escrever música instrumental, e somente trabalhou para o teatro durante os últimos anos de sua vida.

Tem-se observado constantemente que um desenvolvimento excessivamente rápido e precoce das faculdades intelectuais das crianças ocorre em detrimento do físico. Mozart é mais uma prova disto. Ele não se desenvolveu normalmente de acordo com a idade. Ele permaneceu por toda a vida com uma saúde frágil. Seu intelecto, limitado às idéias relativas à musica, iluminou fortemente o seu talento, mas pouco espaço dava para outras áreas. Ele era extremamente irritável; suas afeições eram vivas, mas superficiais e de pouca duração. Ele era melancólico e dominado por uma imaginação ativa e viva [...].

Ele amava o dinheiro; mas não era avarento ou mercenário. Ao contrário, ele era generoso e benevolente; centenas de exemplos podem ser encontrados em sua vida. Ele dava dinheiro sem discernimento, e mais ainda gastava sem ter uma boa razão. Ele recebia muito dinheiro por seus cargos, pela generosidade dos príncipes e pelo produto de seu trabalho; ele morreu pobre, deixando sua estimável esposa, a quem ele amava enormemente, sem nenhum outro recurso além das composições que ele não havia ainda publicado.

Mencionei que ele amava sua esposa enormemente; ela o merecia. Ela o encorajou em seu trabalho e o apoiou em seus acessos de melancolia. Mozart era muito afetuosamente ligado a ela; mas isso não o preveniu de flertar com outras mulheres, e de tal maneira que ele não resistia a elas.

Ouvi um comentário que dizia que ele escreveu la Flûte Enchantée somente para agradar uma mulher do teatro que lhe havia oferecido seus favores em troca. Diz-se ainda que seu triunfo lhe trouxe conseqüências cruéis, tendo ele contraído uma doença incurável da qual ele morreria pouco tempo depois. Este fato me parece improvável; la Flûte Enchantée não é a última de suas óperas, e quando ele a compôs, sua saúde já estava seriamente debilitada.

Mozart foi, por toda a vida, uma espécie de criança. Todos os seus sentimentos tinham mais violência que profundidade. Superficial e inconstante em suas afeições, ele era bom e gentil, mas mais por fraqueza que por virtude. Sua mais forte, ou mesmo sua única paixão, foi a música; ele também amou algumas poucas mulheres com uma vivacidade que a primeira vista dava a impressão de ser paixão, mas que logo se esvaía. Ele julgava sua própria obra com imparcialidade, e freqüentemente com uma severidade que ele próprio não toleraria se fosse vinda de outro. O Imperador Joseph admirava Mozart e o fez maître de chapelle. Ele [o Imperador] gostava de se considerar um dilettante. Sua viagem pela Itália lhe tinha dado uma noção incontestável da superioridade da música italiana sobre todas as outras, e alguns italianos que ele tinha em sua corte cuidadosamente o fizeram nutrir esse preconceito, o que não era sem fundamento. Músicos estrangeiros que estavam em Viena falaram das primeiras tentativas de Mozart com mais inveja que com justiça; e o Imperador era facilmente influenciado pelas opiniões desses eruditos. Um dia, quando ele tinha acabado de ouvir o ensaio de uma ópera cômica que ele mesmo havia encomendado a Mozart (L'Enlèvement du sérail), ele disse ao compositor: "Meu caro Mozart, isto é muito belo para os nossos ouvidos; há notas demais" - "Peço perdão a Vossa Majestade", respondeu Mozart muito secamente, "há exatamente o número de notas necessárias." O Imperador pareceu um pouco embaraçado com essa resposta; mas quando a ópera foi estreada, ele a elogiou muito.

Mas o próprio Mozart ficou mais tarde descontente com essa sua obra; ele fez muitas correções e cortes nela. Mais tarde, quando tocava ao piano uma das árias que haviam sido mais aplaudidas, ele disse: "Ela é boa para um salão de música. mas há muito palavreado nela para o teatro. Quando eu a escrevi, agradei-me dela, mas não hoje."

Ele havia sido nomeado compositor de câmara pelo Imperador, e por essa posição recebia 800 florins por ano; mas ele nunca compôs nada nesse cargo [...]. Ele escreveu numa carta selada: "É demais para o que eu tenho feito, e muito pouco pelo que eu poderia fazer." Ele era muito irregular em seu trabalho. Quando ele tinha uma idéia, nada o poderia arrastar da composição. Ele compunha entre amigos, e passava noites inteiras trabalhando. Outras vezes ele somente era capaz de terminar uma obra no mesmo momento em que tinha de executá-la. Sucedeu um dia que, tendo que escrever uma peça para um concerto na corte, ele não tinha tido tempo de escrever a parte que ele iria tocar. O Imperador Joseph, olhando por acaso a partitura que Mozart parecia estar acompanhando, ficou atônito em não ver nada além de uma pauta sem notas, e disse: "Onde está a sua parte?" - "Aqui", disse Mozart pondo a mão na testa.

Eu mencionei que ele amava sua esposa ternamente, apesar de ele ter sido algumas vezes infiel a ela. Ela tinha uma saúde muito frágil. Durante uma longa doença que ela teve, ele desenvolveu o hábito de caminhar em frente dos que vinham vê-la, pondo o dedo nos lábios pedindo silêncio. Esse hábito tornou-se parte dele, tanto que na convalescença de sua esposa ele ainda fazia o mesmo sinal de silêncio às pessoas que conhecia, pedindo que eles falassem baixo entre si.

Sua própria saúde, de natureza delicada, enfraquecia a cada dia. A irritabilidade nervosa, que era parte de sua constituição, piorou à medida que ele afundava alternadamente nos excessos de trabalho e prazer; isso porque ele não sabia ser moderado nem em um, nem em outro. A sua melancolia tornou-se habitual; ele sentia seu fim se aproximar e aterrorizava-se quando esteve às vésperas da morte. Um desconhecido acontecimento acelerou de maneira penosa os efeitos de sua disposição melancólica..

Um dia quando ele estava mergulhado em seus sonhos tristes, ele ouviu uma carruagem chegar à sua porta; um desconhecido foi anunciado e queria falar com ele. Ele foi introduzido [na casa]; era um senhor um tanto idoso que tinha toda a aparência de um homem distinto. "Fui encarregado", disse o visitante, "por um cavalheiro muito ilustre, para procurá-lo." - "Quem é esse homem?", interrompeu Mozart. - "Ele prefere permanecer anônimo." - "Muito bem, e o que ele deseja?" - "Ele acabou de perder uma pessoa muito querida, e cuja memória lhe será eternamente preciosa. Ele deseja celebrar todos os anos o aniversário de morte dessa pessoa com um serviço solene, e ele lhe pede para escrever um Requiem para esse serviço." Mozart sentiu-se profundamente agitado por esse discurso, pelo tom grave com que foi dito e pelo ar de mistério que parecia envolver todo aquele fato; o estado de sua mente reforçou ainda mais essas impressões. Ele prometeu fazer o Requiem. O desconhecido continuou: "Ponha todo o seu gênio nesta obra; o senhor está trabalhando para um erudito em música." - "Tanto melhor." - "Quanto tempo o senhor pede?" - "Quatro semanas." - "Bem, retornarei em quatro semanas. Que preço o senhor pede por seu trabalho? - "Cem ducados." - O desconhecido as colocou sobre a mesa e desapareceu.

Mozart ficou alguns minutos mergulhado em profunda meditação; então ele repentinamente pediu pena, tinta e papel, e apesar das objeções de sua esposa, ele começou a escrever. Esse frenesi de trabalho continuou por muitos dias; ele trabalhava dia e noite, e com um ardor que parecia crescer à medida que ele continuava. mas seu corpo não podia acompanhar esse esforço. Um dia ele sofreu um desmaio, e foi obrigado a suspender o trabalho. Pouco tempo depois, estando sua esposa a tentar distraí-lo dos pensamentos sombrios que o ocupavam, Mozart disse a ela abruptamente: "É para mim mesmo que escrevo este Requiem. Ele servirá para o meu funeral." Nada o podia dissuadir dessa idéia; ele continuou a trabalhar nesse Requiem como Rafael trabalhou na sua pintura da Transfiguração, igualmente obcecado pela idéia da sua morte.

Mozart sentia sua força diminuir a cada dia, e seu trabalho progredia lentamente; tendo expirado o prazo de quatro semanas que pedira, ele viu o desconhecido entrar em sua casa um dia. "Eu não fui capaz de manter minha palavra.", disse Mozart. - "Não se preocupe," disse o estranho; "quanto tempo mais o senhor precisa?" - "Quatro semanas. O trabalho me inspirou mais do que eu esperava, e eu o fiz mais longo do que tencionava no início." - "Nesse caso é honesto aumentar o pagamento. Aqui estão mais cinqüenta ducados." - "Quem é o senhor?", perguntou Mozart ainda mais atônito. "Isso não nos interessa aqui. Eu retornarei em quatro semanas." Mozart imediatamente mandou um de seus criados seguir aquele homem extraordinário, e descobrir onde ele vivia; mas o criado retornou para comunicar que não fora capaz de descobrir nenhuma pista do estranho.

O pobre Mozart tornou-se obcecado pelo pensamento de que o desconhecido não era um mortal comum, que ele certamente tinha contatos com o outro mundo, e que ele tinha sido mandado para comunicar-lhe que seu fim estava próximo. Ele trabalhou com ainda mais ardor no seu Requiem, que ele considerava como o monumento mais duradouro do seu talento. Durante esse trabalho, ele era acometido por alarmantes acessos de desmaios. Finalmente o trabalho foi completado antes que o prazo de quatro semanas expirasse. O desconhecido retornou no dia combinado. Mozart não existia mais.

Toda a Alemanha considera esse Requiem como a obra-prima do compositor.                                                                                                                 S.


Publicado em Mélanges de Littérature em Paris, 1804.

J. B. A. Suard (1734-1817) era secretário permanente da Académie Française.

 

A afirmativa de que Mozart completou o Requiem é errônea.


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