Esboço de Viena


TRADUÇÃO: CAMILA ARGOLO


ESBOÇO DE VIENA. DE PEZZL

 

Parte 1: 1786

 

1. Situação

10. O Imperador

11. Príncipe Kaunitz

15. Características das pessoas e o que elas vestem

 

 

1. Situação

[...] Às margens do grande Rio Danúbio há uma colina de tamanho regular onde havia fortificações dos tempos romanos; o Danúbio consistia num limite entre a província romana de Panônia1 e as terras dos bárbaros, e sobre aquela colina ficava o posto avançado de Vindobona, que viria a se tornar Viena.

 

Os arrabaldes em torno são famosos por suas muitas belezas, começando pelas belas ilhas de florestas ao norte do Danúbio, formando dez braços2; do topo  de uma colina nua chamada Kahlenberg tem-se uma bela visão do Danúbio durante o crepúsculo. Em direção ao sul há vastas colinas veres; pelo leste há campos abertos, planos e férteis [...].

 

Quem desejar ter uma visão geral dessa paisagem agradável, pode-se subir a torre da Catedral de São Estêvão, ou escalar o Kahlemberg, ou parar na casa de campo do Conde Coblenz na colina que agora tem seu nome3, ou ainda da casa de campo [perto de Dornbach] pertencente ao [Embaixador russo] Príncipe Galitzin4. Também se pode obter uma vista esplêndida de Viena da galeria do pavilhão do [Conselheiro de Estado] Príncipe Kaunitz no subúrbio de Mariahilf, ou das janelas do andar superior do Palácio Belvedere.

 

Até muito recentemente era costumeiro imprimir desenhos de Viena e seus arrabaldes nos leques das damas. É uma pena que essa prática não esteja mais em voga, pois costumava ser muito útil para aqueles que estivessem numa carruagem com uma dama e precisassem se dirigir a Nuβdorf, Laxenburg ou Dornbach, ao mesmo tempo em que ensinava à dama rudimentos de geografia e um pouco sobre sua terra natal [...].

 

1 No original, Pannonia.

2 Atualmente os braços do Danúbio foram regulados, prevenindo enchentes.

3 Mozart visitou essa residência diversas vezes.

4 Um dos protetores de Mozart em 1784.

 

10. O Imperador

[...]  Qualquer pessoa iludida pelas crônicas dos antigos soberanos da Áustria, levada a acreditar que o Imperador Joseph vive escondido em seu castelo, está enormemente  enganada. Nenhum outro soberano vivo percorreu com tanta freqüência suas terras, assim como países estrangeiros. Das Pirâmides ao Krim, de Nápoles a São Petersburgo, o Imperador atravessou diversas vezes nossa parte do globo, e examinou tudo o que fosse relevante en route com seus penetrantes olhos de águia1 [...].

 

Isso explica porque sua tez é bronzeada, e porque seu físico delicado embora bem proporcionado vista melhor, entre todos, o uniforme verde2.

 

No mundo político [ele] pode ser de certa forma comparado ao arco-íris no ar: todos vêem o objeto, mas cada um de uma maneira diferente. Um o vê como um soldado; o outro como um legislador; um terceiro como um bom economista; um quarto como um governante extremamente severo; alguns o vêem como um reformador esclarecido da Igreja; outros como um repressor da devoção geral e dos direitos da Igreja; para alguns ele é um pai benevolente de seu País; para outros um reformador de Estado excessivamente zeloso.

 

O servidor público, o oficial, o padre ortodoxo, o nobre, o estudante, o artista, o cidadão, o camponês: cada um o julga de acordo com suas idéias, e com base nas vantagens e desvantagens momentâneas que acredita que tenham resultado das medidas [do Imperador].

 

O filósofo o considera com sang froid, silenciosamente observa suas ações, e recolhe opiniões, guardando-os nos arquivos da humanidade, para que a posteridade posse ter uma imagem fiel desse príncipe verdadeiramente extraordinário.

 

1 Referência velada ao símbolo dos Habsburgo, a águia de duas cabeças.

2 Uniforme de Marechal de Campo.

 

11. Prínipe Kaunitz

Com exceção de Theresia1 e de Joseph, ninguém chamou tanta atenção do público austríaco nos últimos trinta anos do que o Ministro de Estado, Príncipe Kaunitz [...], e não só dos austríacos, mas a maior parte da Europa civilizada tem mostrado profundo respeito e amor a esse ministro, e com a mais profunda convicção. De fato, Kaunitz é único entre seus pares: tamanha honestidade, desinteresse, as maneiras nobres e grandiosas que colorem todas as suas ações, [tais aspectos] são encontrados em poucos ministros.

 

Kaunitz é de constituição nobre; ele deve ter sido extraordinariamente belo em sua juventude [...].

 

1 Maria Theresia

 

15. Características das pessoas e o que elas vestem

O austríaco nativo é de estatura média, embora seja mais alto do que baixo [...], e geralmente tem boa aparência. Na própria Viena o sangue nativo se tornou tão diluído com o de outras nações que se tornou uma raridade. O vienense típico, como existia há algum tempo, é dotado de um queixo longo e pontudo bastante característico.

 

Os húngaros são caracterizados por maçãs-do-rosto um tanto elevadas.

 

As damas vienenses - que se encaixam nessa descrição pelo fato de que a maioria delas realmente nasceu aqui - são agradavelmente proporcionadas, de temperamento vivaz, sagazes, ligeiras, esbeltas, constituição delicada, tez pálida e pele fina. Elas porém envelhecem um tanto rapidamente, sua pele se torna frouxa e em sua velhice apresentam uma tendência a ganhar peso.

 

O vestuário de ambos os sexos seguem estritamente os decretos da última moda, com todas as vantagens e lapsos de bom gosto que essa deusa volátil impõe.

 

Hoje em dia os cavalheiros usam roupas curtas e justas. As enormes fivelas de cinto1 ainda são usados, mas estão alguns centímetros mais curtos e menores. No geral, os altos e antiquados chapéus anglo-saxões estiveram na moda por apenas seis meses; agora o chapéu que se usa é o pequeno e redondo do tipo inglês. O uso de duas correntes de relógio tornou-se fora de moda novamente. Sapatos de amarrar e meias listradas estão se tornando populares, e meias combinando com a cor da roupa são a última moda. Para o dia-a-dia, sobrecasacas vermelhas e verdes são as preferidas. Anéis agora têm sido fabricados com camafeus de homens famosos. Espadas são trabalhadas com brilhantes.

 

E as damas! Quem pode enumerar seus caprichos, que pena é ágil o suficiente para capturar suas mil mudanças, para pôr no papel todos esses pequenos nadas que formam a base da indumentária feminina? [...] Uma coisa é certa: em nossa época o sexo frágil está se vestindo de maneira incomparavelmente mais natural, com mais bom gosto, mais leve e atraente que nunca.

 

Os tecidos não são mais tão pesados, tão caros ou tão duráveis; mas devido à sua leveza e preço mais barato eles são trocados com mais freqüência e substituídos por novos, e dessa forma obtemos uma aparência cada vez mais variada, limpa e fresca.

 

O chapéu tem mil tipos de fitas, flores, grinaldas, rendas, penas, alfinetes decorativos, etc. - como eles caem bem em relação ao rígido penteado que se usava! [...] Como essas moças vivazes parecem ninfas em seus vestidos brancos de verão com uma fita em suas cinturas enquanto elas flutuam pelo Passeio [...]. E as peles no inverno - a maneira de vestir que mais me agrada nelas - que simplicidade grega elas têm! Como elas complementam os encantos de um busto arredondado! [...].

 

Infelizmente todos esses atrativos, todas essas belezas são arruinadas pelas horríveis, desastradas e malditas saias balão2. Nunca uma invenção fez tanto para destruir o charme e a graça do que esse monstruoso dispositivo. Ele transforma até  a menina mais esbelta num barril [...].

 

As damas da sociedade agora começaram a se despir dessa bagagem insuportável, e dessa maneira revelam suas graças naturais3. [...]

 

1 No original Pferdenschnallen.

2 No original Buffanten.

3 Em um rodapé Pezzl acrescenta: "Em 1787 todas as saias balão desapareceram."


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