Francesco Benucci (c.1745-1824)


Francesco Benucci nasceu em c.1745, provavelmente em Florença. Ele começou sua carreira de cantor em Pistoia, e depois em Livorno, onde cantou como Don Tritemio em Il filosofo de campagna de B. Galuppi e como Toniolo em Gli ucelatori de Gasmann em 1768. No ano seguinte ele esteve na Espanha, especialmente em Madri, com uma companhia de teatro itinerante da Itália. No ano seguinte ele retornou a Florença, onde cantou no papel de Tonio em Il ratto della sposa P. Guglielmi. Ele fez muito sucesso na Itália - especialmente em Veneza (1778-79) e Milão (1779-82).

 

Entre seus principais papéis nesse período encontram-se, em 1778: Naimur em L'americana in Olanda de P. Anfossi em Veneza; Conte Zeffiro em La vendemmia de G. Gazzaniga em Gênova; Orgasmo em L'avaro  e Don Fabrizio em La frascatana de Paisiello em Bolonha. Em 1779: Conte Zeffiro em La vendemmia de Gazzaniga em Monza; Gasperone em Il francese bizzaro de Astaritta e Ceccino em Le gelosia villane de Sarti em Milão; Gasperone em Il francese bizzaro de Astaritta e Don Polidoro em L'italiana in Londra de Cimarosa em Turim. Em 1780: Don Fabrizio em La frascatana de Paisiello e Don Polidoro em L'italiana in Londra de Cimarosa em Florença; Fabrizio em Gli antiquarii in Palmira de G. Rust, Don Fabrizio em La frascatana de Paisiello e Don Polidoro em L'italiana in Londra de Cimarosa em Milão. Em 1781: Don Polidoro em L'italiana in Londra de Cimarosa em Florença, com Nancy Storace; Barone Astolfo em Le nozze in contrasto de Valentini em Livorno, também com Nancy Storace; Gianfriso em Gl'inganni scambievoli e Barone Cricca em Il pittor parigino de Cimarosa em Roma. Em 1782: Titta em Fra i due litiganti il terzo gode de Sarti, Barone Cricca em Il pittor parigino de Cimarosa  e Geronimo  em Le sorelle rivali de Valentini no La Scala de Milão; Don Falloppio em Le avventure di Don Falloppio de A. Tarchi em Roma.

 

Em 1783 ele foi contratado para a re-abertura da Ópera Italiana em Viena, onde estreou na ópera La scuola de' gelosi de A. Salieri em 22 de abril no papel de Blasio. Em 13 de agosto ele cantou com imenso sucesso no papel de Bartolo em Il barbiere di Siviglia de G. Paisiello com Nancy Storace como sua pupila Rosina.

 

Ainda naquele ano Mozart começou a escrever a ópera Lo sposo deluso K.430/424a, destinando o papel de Bocconio a Francesco Benucci. É possível que Mozart também tenha escrito algum dos papéis de baixo da ópera L'Oca del Cairo K.422 tendo Benucci em mente, talvez Don Pippo ou Chichibio. Se essa hipótese for verdadeira o papel mais plausível seria o servo Chichibio, pois o baixo italiano Francesco Bussani iniciou sua carreira em Viena recebendo a maioria dos papéis principais (como o papel-título de Il barbiere di Siviglia), mas essa situação se inverteria com o passar dos anos. Ambas as óperas de Mozart ficaram incompletas.

 

Em outubro de 1783 ele cantou na ópera Le gelosie villane de Sarti com Aloisia Lange, Nancy Storace, Michael Kelly, Francesco Bussani, Saal e Theresia Teyber.

 

Em novembro de 1783 Benucci retornou à Itália, tendo um compromisso em Roma, retornando no final de abril do ano seguinte. Ele permaneceu em Viena com breves interrupções até 1795. Seus outros papéis naquela cidade incluíam: Titta em Fra i due litiganti il terzo gode de Sarti (28 de maio de 1783) - Titta é o pretendente menos esperto de Dorina, interpretada por Storace; Taddeo em Il rè Teodoro in Venezia (23 de agosto de 1784) e Marchese Tulipano em La contadina di spirito (6 de abril de 1785), ambas de Paisiello; Rosmondo em Gli sposi malcontenti de S. Storace (1º de junho de 1785);  Trofonio em La grotta di Trofonio de Salieri (12 de agosto de 1785); Ferramondo em Il burbero di buon core de Martín y Soler (4 de janeiro de 1786); Il Maestro em Prima la musica, poi le parole de Salieri (7 de fevereiro de 1786); Figaro em Le nozze di Figaro K.492 de Mozart (1º de maio de 1786); Pierotto em I finti eredi de Sarti (1º de agosto de 1786); Tita em Una cosa rara de Martín y Soler (17 de novembro de 1786); Dromio em Gli equivoci de S. Storace, com Nancy Storace, Michael Kelly, Vincenzo Calvesi, Stefano Mandini, Katherina Cavalieri e Theresia Teyber (27 de dezembro de 1786); Axur em Axur, rè d'Ormus de Salieri (8 de janeiro de 1788); Leporello na estréia vienense de Don Giovanni K.527 (7 de maio de 1788); Guglielmo em Così fan tutte de Mozart (26 de janeiro de 1790); Bonario no pasticcio L'ape musicale (1789), no qual cantou o dueto "La ci darem la mano" de Don Giovanni K.527 com Luisa Laschi Mombelli; Robinson em Il matrimonio segreto de D. Cimarosa (7 de fevereiro de 1792); e Don Fabrizio em La frascatana de Paisiello (14 de dezembro de 1794). Benucci também cantou num papel não identificado em L'amor contrastato, ossia La molinara de Salieri entre 1790-1, com Adriana Gabielli del Bene e Gasparo Bellentani.

 

Além de todos esses papéis, Benucci era muito requisitado para concertos no teatro (ou "Academias"), de Quaresma (período em que os teatros ficavam fechados) e em residências de nobres vienenses.

 

Em carta ao pai Leopold em 7 de maio de 1783, Mozart escreveu que Benucci era "particularmente bom." Ele quase imediatamente à sua chegada se tornou o preferido entre os cantores italianos, recebendo a maioria dos papéis principais. O Conde Zinzendorf o descreveu como "muito bom" e "admirável". O Imperador Joseph II escreveu ao Conde Rosemberg-Orsini que Benucci "valia mais que duas Storaces". O tenor Michael Kelly (primeiro Basilio e Curzio em Le nozze di Figaro K.492) escreveu em suas memórias que Benucci e Stefano Mandini eram "os melhores atores cômicos da Europa". Ele também relatou um episódio ocorrido no primeiro ensaio geral de Le nozze di Figaro. Quando Benucci ensaiava sua primeira ária, "Non più andrai", "Mozart [...] sotto voce, repetia Bravo! Bravo! Bennuci [sic] [...] e quando Bennuci chegou àquela excelente passagem 'Cherubino, alla victoria [sic], alla gloria militar' que ele cantou com pulmões poderosos, o efeito foi eletricidade pura." Kelly, porém, não foi tão benevolente quando falou da aparência física de Benucci. Em geral ele era considerado notável não só por sua voz e por seu talento como ator, mas também por sua naturalidade e excelente presença de palco, além de ser capaz de ler música, o que não era muito comum. Benucci gostava de independência em seu trabalho, especialmente na atuação, o que teria causado alguns problemas com Francesco Bussani e o libretista Lorenzo da Ponte.

 

Aparentemente Benucci e Nancy Storace (a primeira Susanna em Le nozze di Figaro) foram amantes entre 1784 e 1786. Porém ela, que era separada do violinista inglês John Abraham Fisher (1744-1806) desde 1783, o teria abandonado por William Harry Vane, Lord Barnhard (1766-1842), segundo consta no diário do Conde Zinzendorf. Não se tem notícia de que Benucci foi casado, nem mesmo se sabe quem foram seus pais. Alguns cantores contemporâneos de sobrenome Benucci foram localizados na Itália, mas sem comprovação de parentesco. Em 1789-90 uma certa Francesca Benucci foi contratada em Viena, mas também não se sabe se ela e Francesco eram parentes. Ela cantou em Moscou  em 1790-1 e na Itália em 1795-97, e se casaria com um francês chamado Monsieur la Motte.

 

Em 1789, Benucci tirou licença para cantar em Londres, estreando como Conte Zeffiro em La vendemmia de Gazzaniga no King's Theatre (9 de maio). Nessa ópera, ele e Nancy Storace (no papel de Agatina) cantaram o dueto "Crudel, perchè finora" de Le nozze di Figaro K.492; além desse dueto, foram acrescentados números de S. Storace, C. Pozzi e Tarchi. Benucci participou da ópera La buona figluola de Piccini em 18 de junho de 1789 como Tagliaferro. Benucci e Storace cantaram novamente juntos em Il barbiere di Siviglia de Paisiello nos mesmos papéis de Viena (Bartolo e Rosina) em 11 de junho de 1789 e pela última vez 3 de junho de 1790. Seu sucesso em Londres não foi tão estrondoso como em Viena, pois o público preferia pasticci com danças e cenários fantásticos, e as óperas apresentadas eram demasiado complicadas para os londrinos.

 

De volta a Viena, Benucci teve seu último grande sucesso como Conte Robinson Il matrimonio segreto de Cimarosa com Dorothea Bussani (Fidalma), Irene Tomeoni (Carolina) e Giambattista Serafino Blasi (Geronimo) em 7 de fevereiro de 1792. Ele ainda continuou a agradar o público; o Conde Zinzendorf escreveu em seu diário que Benucci cantou "como um anjo" na ópera La frascatana de Paisiello em 14 de dezembro de 1794.

 

Após encerrar seu contrato em Viena em 1795, Benucci cantou por algum tempo no La Scala de Milão, onde cantou nas óperas Gli artigiani de Anfossi (12 de agosto), Fra i due litiganti il terzo gode de Sarti (2 de setembro) e L'impostura poco dura de Tarchi (10 de outubro). Em 1796 ele cantou em Roma e em 1797 e 1800 em Livorno.

 

Ele aposentou-se em Florença, onde faleceu em 5 de abril de 1824.


Parentes e amigos

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