Anton Raaff (1714-1797)


Anton Raaff nasceu em Gelsdorf, perto de Bonn, Alemanha, e foi batizado em 6 de maio de 1714. Tenor de grande sucesso em sua época, Raaff foi originalmente destinado à carreira eclesiástica, tendo estudado no Seminário Jesuíta de Colônia. Lá, participou de peças com música. A serviço do Príncipe-Eleitor da Baviera, Karl VII Albrecht (1697-1745), que patrocinara seus estudos de canto com Giovanni Ferrandini (1710-1791) em Munique em 1736-7. Raaff participou da ópera de seu mestre, Adriano in Siria, em Munique no Carnaval de 1737.

Em 1738, o Príncipe-Eleitor patrocinou também sua viagem para a Itália para estudar com o castrato Antonio Maria Bernacchi (1685-1756), em Bolonha. Bernacchi também fora professor de Carlo Broschi, "Farinelli". Enquanto esteve em Bolonha, Raaff tornou-se um bom amigo do Padre Giovanni Battista Martini, que mais tarde seria um grande defensor de Mozart.

No ano seguinte esteve em Veneza, onde cantou no papel de Pompeo em Farnace de Rinaldo di Capua, no outono de 1739, e como Il Fato na serenata Il decreto del fato de Domenico Paradies para as celebrações do casamento do Príncipe Philippe de Bourbon Farnese em 1740. Outros papéis foram Berengario em Ottone de Giuseppe Alessandri e Osroa em Adriano in Siria de Giovanni Antonio Giai, no carnaval de 1740.

Notícias de seu sucesso na Itália chegaram à Alemanha, e o Príncipe-Eleitor de Bonn pediu que Raaff retornasse à Alemanha. Ele o fez relutantemente em 1741 e lá ficou até 1749. Nesse tempo cantou nas celebrações da Coroação Imperial em Frankfurt e do casamento do Eleitor Paladino Karl Theodor com a Condessa Elisabeth Maria Augusta von Sulzbach em Munique em 1742.

Em 1749, Raaff foi para Viena, onde cantou em várias óperas de Niccolò Jomelli, como o papel-título de Catone in Utica, em 16 de abril, assim como Merope, Achille in Sciro e Didone abbandonata. O libretista Pietro Metastasio escreveu a Farinelli em 28 de maio de 1749 que Raaff cantava "como um serafim"; em carta à Princesa Belmonte em 22 de janeiro de 1761, chamou o tenor "nosso incomparável Signor Raaff".

Raaff retornou à Itália no final de 1749 ou no início de 1750. Cantou nas celebrações de casamento do Rei Vittorio Amadeo III do Piemonte-Sardenha com a Princesa Maria Antonia Ferdinanda da Espanha no Teatro Regio de Turim na festa teatrale La vitoria d'Imeneo como Marte em 1750. Em junho do ano seguinte cantou em Pádua na abertura na nova casa de ópera daquela cidade com a ópera Artaserse de Baldassare Galuppi, no papel de Artabano.

Em 1752 Raaff cantou em Lisboa. O compositor David Perez escreveu para ele o papel-título de Demofoonte. Raaff permaneceu em Portugal até 1755, e de lá foi para a Espanha, a convite de Farinelli. O famoso castrato estava montando uma companhia de ópera com alguns dos mais famosos cantores da Europa. Raaff cantou na estréia de La Nitteti de Nicola Conforto, no Coliseo del Buen Retiro, Madri, em 23 de setembro de 1756. Raaff retornou à Itália em 1759.

A primeira apresentação de Raaff em Nápoles ocorreu nas celebrações da ascensão do Rei Ferdinand IV sucedendo seu pai Carlos, que por sua vez assumia o trono da Espanha. Raaff também cantou como Giove em L'Astrea placata de Francesco di Majo em 29 de junho de 1760. Aparentemente um prólogo foi adicionado para uma apresentação em homenagem à Rainha Maria Amalia, mãe do Rei Ferdinand IV, em 10 de julho, e o Rei solicitou ao tenor que cantasse no papel-título de Attilio Regolo, originalmente de Jomelli, embora em Nápoles talvez tenha sido apresentada em forma de pasticcio.

Nessa época, a fama de Raaff chegou a tal ponto que o Rei Ferdinand IV formalizou seu contrato em Nápoles. Durante a temporada de 1761-2, Raaff cantou na ópera Catone in Utica de Johann Christian Bach em 4 de novembro de 1761, Danao em Ipermestra de Pasquale Cafaro em 26 de dezembro, o papel-título de Alessandro nell'Indie de J. C. Bach em 20 de janeiro de 1762. Naquela temporada até a de 1764-5, Raaff participou de diversas cantatas, como Sempre caro il ciel conservi  de Gregorio Scirolli, no papel de Ercole, em 12 de janeiro de 1762; Già degli ancor non tocchi de J. C. Bach, no papel de Marte, em 20 de janeiro de 1762;  Padre del gran arcano de Nicola Sala, no papel de Giove, em 20 de janeiro de 1763; e No, quest'alma capace de Cafaro, no papel de Proteu, também em 1763.

Outras óperas nas quais Raaff participou foram: a estréia de Lucio Vero, de Antonio Sacchini, em 4 de novembro de 1764; Catone in Utica de J. C. Bach, no papel-título, em 26 de dezembro de 1764; Caio Mario de Piccini, além da cantata La pace fra Giunone ed Alcide, do mesmo compositor. Nessa época, Raaff cantou com grandes nomes como Caterina Gabrielli, Anna Lucia de Amicis, Caffarelli e Giovanni Manzuoli.

Não se sabe se Raaff estava em Nápoles na temporada de 1765-6; aparentemente estava viajando pela Itália.

Na temporada seguinte, 1766-7, cantou com as duas irmãs Gabrielli, Caterina e Francesca, na ópera Antigono de Giuseppe Scolari, em 30 de maio de 1766; em 4 de novembro cantou em Gran Cid de Piccini, com Caterina Gabrielli. Aparentemente Raaff também participou da ópera Il Vologeso de Sacchini em dezembro daquele ano. Em 27 de dezembro, cantou novamente em Lucio Vero de Sacchini, novamente com as irmãs Gabrielli.

Em 20 de janeiro de 1767, aniversário do Rei Ferdinand IV, o compositor boêmio Joseph Mysliveček foi convidado para escrever a ópera Il Bellerofonte, e a compôs em apenas um mês. Aparentemente o compositor estava tendo um caso com Caterina Gabrielli, o que talvez tenha assegurado a encomenda. Mysliveček também escreveu a cantata Udiste, il suon festivo, com Raaff cantando no papel de Giove. Raaff também participou da Cantata a tre voci de Piccini, nessa época.

No outono de 1767 Raaff esteve em Florença, onde cantou no Teatro alla Pergola na ópera L'Olimpiade de Tommaso Traetta, no papel de Clistene com Anna de Amicis (Aristea) e Giovanni Manzuoli (Megacle). Raaff retornou a Nápoles e cantou no papel de Giove em Le Nozze di Peleo e Tetide de Piccini com Lucrezia Aguiari "Bastardella" como Tetide. A ocasião foi o casamento do Rei Ferdinand IV com a Arquiduquesa Maria Carolina da Áustria, filha de Maria Theresia e irmã da Arquiduquesa Maria Josepha, que havia falecido de varíola em 1767 e fora a primeira noiva do Rei. Talvez a serenata Il giudizio d'Apollo de Nicola Sala tenha sido escrita para essa ocasião. Raaff cantou o papel de Apollo e Antonia Maria Girelli-Aquillar no papel de Giunone.

Talvez sua última apresentação em Nápoles tenha sido em uma cantata de Francesco di Majo em 13 de agosto de 1768, no papel de Dusare, com Elisabeth Teyber (irmã de Theresia Teyber) no papel de Partenope.

Em 1770, Raaff foi contratado pelo Príncipe-Eleitor Karl Theodor para a Ópera de Mannheim, onde cantou Catone in Utica de Piccini, estreada em 4 de novembro, no papel-título, com as cunhadas Dorothea e Elisabeth Wendling. Lá, ele usou sua influência para a contratação de Johann Christian Bach para escrever Temistocle, estreada em 4 de novembro de 1772 ou no dia seguinte. Raaff cantou no papel-título, Dorothea Wendling como Aspasia e Elisabeth Wendling como Rossane.

Um escritor anônimo afirmaria no Allgemeine Musikalische Zeitung em 1810 que Raaff possuía uma voz "inigualável em volume e beleza", e uma ótima dicção do alemão e do italiano. Com quase sessenta anos, Raaff ainda estava no seu auge, a julgar pela música escrita para ele. Nessa época ele cantou em Stuttgart, na ópera Fetonte de Jomelli. De volta a Mannheim, Raaff cantou no papel-título de Lucio Silla de J. C. Bach em 7 de novembro de 1774, recebendo quatro árias. Dorothea Wendling cantou no papel de Giunia e Elisabeth Wendling no papel de Celia. A ópera não fez muito sucesso e J. C. Bach não recebeu mais encomendas em Mannheim; especula-se que os motivos tenham sido a música menos ornamentada, comparações entre o Príncipe-Eleitor e o anti-herói Lucio Silla (embora o próprio Karl Theodor tenha escolhido o libreto) e a ascensão da Ópera Alemã. De fato, essa foi a penúltima ópera italiana apresentada em Mannheim até a mudança da corte para Munique em 1778.

Quando Mozart chegou a Mannheim em 1777, procurou manter contato com Raaff, que era influente e tinha muito boa reputação. Mozart e Raaff aparentemente foram apresentados pelo violinista Christian Franz Danner. Nessa época, a voz de Raaff estava em decadência. Após ouvi-lo em Günther von Schwarzburg, de Holzbauer, Mozart escreveu ao pai: "Quem quer que o ouça iniciar uma ária, e não se lembre que se trata de Raaff, aquele que um dia foi um tenor famoso, estoura de rir." (carta de 14 de novembro de 1777), embora afirmasse mais tarde que Raaff ainda possuía algumas de suas antigas qualidades.

Mozart concebeu a ária Alcandro, lo confesso... Non so d'onde viene K.294 para Raaff, mas logo no início mudou de idéia e escreveu-a para o soprano Aloisia Weber, também residente em Mannheim. Para compensá-lo, Mozart escreveu a ária Se al labbro mio non credi K.295, tendo tido que adaptar algumas partes às atuais condições do velho tenor. Raaff gostava imensamente dessa ária, especialmente da segunda parte ("Il cor dolente").

Raaff, assim como alguns outros músicos de Mannheim, apresentou-se em Paris no verão de 1778, e lá encontrou-se com Mozart. No concerto de 18 de junho, no qual a Sinfonia N.31 em Ré Maior "Paris" K.297/300a foi estreada, Raaff cantou a ária "Non so d'onde viene", de J. C. Bach, que Mozart considerava na época sua favorita.

Alguns anos mais tarde, Raaff foi escolhido para estrear o papel-título de Idomeneo K.366. Mozart retornou a Munique em 1780 e sempre falava do velho tenor com afeição, mas sempre era extremamente crítico em relação à sua maneira de atuar, "como uma estátua" (carta de 8 de novembro de 1780) e cantar, "afinal, ele é um homem velho..." (carta de 15 de novembro). Para o compositor, Raaff e Vincenzo da Prato (o primeiro Idamante) eram "os piores atores que jamais pisaram num palco [...], Raaff é o melhor e o mais honesto dos companheiros, mas é tão apegado às suas velharias que enlouquece qualquer um." (carta de 27 de dezembro).

Mozart, porém, escreveu, a pedido de Raaff, uma ária extra, "Torna la pace al core" para o terceiro ato de Idomeneo K.366. Raaff ficou muito contente com a ária "Fuor del mar" do segundo ato: "O camarada está tão apaixonado pela ária como um jovem amante por sua amada, pois ele a canta à noite antes de dormir e pela manhã quando acorda" (carta de 1º de dezembro de 1780).

O tenor Michael Kelly (o primeiro Basilio e Don Curzio em Le Nozze di Figaro K.492) visitou Anton Raaff em 1787, em Munique, juntamente com o soprano Nancy Storace (a primeira Susanna na mesma ópera) e o irmão desta, o compositor Stephen Storace. Raaff cantou para eles a ária "Non so d'onde viene" de J. C. Bach. Kelly relembrou em suas Memórias (Reminiscences, 1826): "Apesar de sua voz estar prejudicada, ele ainda tinha uma agradável voce di petto, notas sustentadas, e um estilo puro de cantar."

Anton Raaff foi um dos cantores que mais contribuiu para a popularização da voz do tenor em papéis principais em oposição aos castrati e sopranos femininos. Raaff faleceu em Munique, 28 de maio de 1797.


Parentes e amigos

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